O desconhecido

Há um idioma que nasce antes das palavras.

Não pertence a povo algum,
não conhece fronteiras,
não precisa ser compreendido
para ser sentido.

Talvez a alma sempre tenha falado assim.

Há portões que não se abrem com chaves,
mas com coragem.
Não conduzem a outros lugares,
conduzem a outras versões de nós mesmos.

Toda travessia exige deixar algo para trás:
um nome,
um medo,
uma certeza.

Do outro lado,
não existe resposta.
Existe silêncio.
E, curiosamente,
é nele que a vida aprende a pronunciar o que nunca coube em nenhuma língua.

Somos viajantes de constelações invisíveis,
colecionadores de ausências,
habitantes de um tempo que gira em círculos,
como um canto antigo
que ninguém traduz,
mas todos reconhecem.

Há dias em que caminhamos sem mapa,
guiados apenas pela estranha lembrança
de um lugar onde nunca estivemos.

E talvez seja isso o pertencimento:
não encontrar um destino,
mas perceber que o caminho sempre nos conheceu.

Quando o último portal se abrir,
não haverá aplausos,
nem despedidas.

Apenas o eco de uma voz sem idioma,
repetindo suavemente
que todo fim
era apenas outra forma
de começar…

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