O dia em que o Zeppelin passou por Navegantes

O dia em que o Zeppelin passou por Navegantes

POR ROGÉRIO PINHEIRO

No amanhecer do dia 1º de julho de 1934, os moradores de Navegantes acordaram assustados com o som estranho e muito alto no céu. Todos correram para ver o que acontecia. Não se tratava de uma nave alienígena, e sim de uma novidade que se chamava LZ 127 Graf Zeppelin, um dirigível construído na Alemanha e utilizado também por Hitler como propaganda nazista.

Com 236,6 metros de comprimento por 30,5 metros de largura, o dirigível assustava também pelo tamanho, três vezes maior que o Boeing 747-8, que tem 77 metros de comprimento. O nome da aeronave homenageava Ferdinand Adolf August Heinrich Graf von Zeppelin (1838-1917), o conde Zeppelin.

Sua estrutura de alumínio era revestida por lona de algodão pintada de prata para refratar o calor. Possuía 60 balões de hidrogênio e cinco motores de 12 cilindros, com até 550 HP cada, que lhe permitiam atingir 128 km por hora e transportar até 62 toneladas.

Ao todo, o Graf Zeppelin realizou 590 voos, sendo 68 deles para o Brasil. O dirigível transportou cerca de 13 mil passageiros em seus quase 10 anos de operação. A chegada do dirigível foi capa do jornal O Pharol de 2 de julho de 1934.

Depois de sobrevoar Itajaí e Navegantes, o Zeppelin seguiu para Blumenau.  Crédito: Arquivo Histórico José Ferreira da Silva

“Um espetáculo inolvidável foi nos proporcionado pelo Graf Zeppelin, a possante concepção do gênio alemão, que conforme era esperado, fez, ontem, seu regresso de Buenos Aires, diversas evoluções sobre a cidade.

Itajaí foi despertada, ao alvorecer, pelo ruído dos motores da grandiosa aeronave. Era 5h40 e o Zeppelin enfrentava a cidade pelo lado do mar, o que foi presenciado pelos madrugadores. Estes se encarregaram em auxiliar o ruído dos motores num alvissareiro aviso aos que ainda dormiam. Aos poucos, todos despertavam, acorrendo à rua a assistir à passagem do dirigível.

Ao lusco-fusco da madrugada, a silhueta imensa deslizava sobre Itajaí, a pequena altura, refletindo sobre a cidade seus possantes faróis, demorando-se durante 40 minutos em evoluções que eram acompanhadas atentamente pela população. Já era quase dia claro quando o Zeppelin, acelerando os motores, rumou para Blumenau, de onde regressou às 8h30, passando ao norte da cidade, prosseguindo na sua rota para a Capital Federal (Rio de Janeiro)”

Propaganda nazista

Na década de 1930, um navio levava de 15 a 21 dias para cruzar o Atlântico. Já um dirigível percorria o mesmo trajeto em apenas três dias e meio. Apesar do valor da passagem, que correspondia à de uma primeira classe em navio de luxo, a empresa alemã Luftschiffbau-Zeppelin GmbH apostou em uma rota aérea comercial entre Europa e Américas utilizando os dirigíveis.

Com a chegada de Adolf Hitler ao poder em 1933, todas as aeronaves alemãs passaram a ser identificadas com a suástica em seu leme direito. Além de veículos de transporte de passageiros, os dirigíveis também eram utilizados para a propaganda nazista.

O propósito nazista também ficou evidenciado na visita do Graf Zeppelin por Santa Catarina. A colonização alemã foi um dos motivos para que o dirigível passasse pelo

Além de transportar passageiros, os dirigíveis também se transformaram em instrumento de propaganda nazista. Crédito: Smithsonian’s National Postal Museum 

Estado. Além de Itajaí, o dirigível sobrevoou também Blumenau e Joinville. Essas duas últimas cidades contavam com muitos simpatizantes do regime de Adolf Hitler.

Em um artigo publicado no Jornal Diário do Litoral (Diarinho) de 15 de outubro de 2010, a escritora Marlene Rothbarth (in memoriam) recordou a passagem do Graf Zeppelin por Itajaí.

“Era manhã, bem cedinho, madrugada ainda, quando os vizinhos acordaram e o alvoroço se instalou na rua Samuel Heusi para ver passar uma das grandes maravilhas da tecnologia moderna. O ronco dos motores assustava e, ao mesmo tempo, provocava a curiosidade de todos que olhavam para o céu, admirando a passagem do Zeppelin, o dirigível famoso, símbolo da Alemanha nazista que voava pelos céus para mostrar ao mundo o seu poderio.

Mas, naquele dia, eu ainda me lembro, as pessoas reagiam das mais variadas formas. Algumas aplaudiam, outras olhavam em silêncio, todas admiradas com aquele aparelho roliço, voando majestoso, exibindo suas formas e seu poder. Os homens nem tiraram seus pijamas. As mulheres se apressaram em trocar as camisolas por um vestido caseiro.

Muitos correram até o trapiche da Cia. Bauer para assistir à chegada do Zeppelin, vindo lá pelos lados da barra do rio Itajaí-Açu. De repente, ele surge imponente, voando baixo, luzes piscando, e pelas janelas podia-se ver que estava todo iluminado no seu interior. Passou vagarosamente, como se fosse pousar, deslizando sobre nossas cabeças, em direção ao oeste, pois passaria por Blumenau.”

Uma imagem rara do interior do Graf Zeppelin, o gigantesco dirigível que sobrevoou Navegantes em 1934.  Crédito: Smithsonian’s National Postal Museum 

Tragédia pôs fim à era dos dirigíveis

Além do Graf Zeppelin, outro dirigível de fabricação alemã também fazia a rota entre a Europa e a América do Sul, o LZ 129 Hindenburg. Seu primeiro voo para o Brasil aconteceu no dia 31 de março de 1936 e, entre os passageiros, estava o maestro e compositor Heitor Villa-Lobos.

Comparado ao Graf Zeppelin, o Hindenburg era um pouco maior. Tinha 245 metros de comprimento, quase o tamanho do Titanic, que media 269 metros e 41,2 metros de largura. O Hindenburg atingia a velocidade de 135 km/h e podia transportar até 72 passageiros.

Igual ao Titanic, a história do Hindenburg também terminou em tragédia. No dia 6 de maio de 1937, ao tentar pousar na base naval de Lakehurst, em Nova Jersey, nos Estados Unidos, o dirigível pegou fogo. A tragédia mudou para sempre a história da aviação. Das 97 pessoas que estavam a bordo, 35 morreram, 13 dos 36 passageiros e 22 dos 61 tripulantes, além de um integrante da equipe de solo que também perdeu a vida no acidente.

 A tragédia com o  Hindenburg em 1937, em Nova Jersey,  marcou o fim da era dos grandes dirigíveis comerciais. Crédito: Universal History Archive/Getty Images 

As imagens do gigantesco dirigível em chamas, transmitidas e reproduzidas em jornais de todo o mundo, chocaram o público e destruíram a confiança nos dirigíveis como meio seguro de transporte de passageiros. O desastre do Hindenburg marcou o fim da era dos grandes dirigíveis comerciais, que até então representavam uma das grandes promessas da aviação e testemunhada pelos moradores de Navegantes naquele amanhecer do dia 1º de julho de 1934.

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