Nesta sexta-feira (30) começa mais uma edição da tradicional festa de Nossa Senhora dos Navegantes. Apesar de ser centenária, a festa não é a mais antiga de Navegantes. Antes dela, muitas outras fizeram parte do calendário do então bairro de Itajaí. Uma delas tinha forte ligação com a população e terminou após ser boicotada.
A coluna Outros Quinhentos conta a história da festa de Santo Amaro.
Antes de receber seu nome definitivo, em 1962, Navegantes teve outras denominações: Outro Lado, Lado Norte, Arraial de Santo Amaro e Arraial de Navegantes. Além do nome, Santo Amaro também dava nome a uma festa tradicional realizada desde o século XIX. Até 1899, Amaro era o santo mais cultuado de Navegantes e, por muitos anos, o local foi conhecido como Arraial de Santo Amaro.
Capela em Navegantes
Em 1895, o vigário de Itajaí, padre Antônio Eising, solicitou ao bispo diocesano de Curitiba, dom José de Camargo Barros, permissão para a construção de uma pequena capela em Navegantes, em homenagem a Santo Amaro. Além do santo mais cultuado à época, a capela também atendia às devoções a Nossa Senhora dos Navegantes e a São Sebastião.
A comunidade do Arraial de Santo Amaro passou a organizar festas em homenagem aos seus santos. A primeira era a de Santo Amaro, realizada no dia 15 de janeiro. Na sequência, aconteciam a festa de São Sebastião, no dia 20 de janeiro, e a hoje tradicional festa de Nossa Senhora dos Navegantes, em 2 de fevereiro.
A festa de Santo Amaro seguiu até 1904. No ano seguinte, moradores reclamaram da não realização dos festejos. O Jornal Novidades, na edição de 22 de janeiro de 1905, acusou o juiz da festa, o senhor José Ignácio de Medeiros, de não ter realizado os festejos em homenagem a Santo Amaro.

“Enquanto que o senhor Carlos Seára e a senhora do senhor Emílio Augusto da Cruz Coutinho empenharam-se pelo maior brilhantismo das novenas e festa de São Sebastião, na igrejinha à margem esquerda do rio, as novenas de Santo Amaro, a cargo do senhor José Ignácio de Medeiros e da senhora de Domingos Antônio Pereira, correram como se não houvessem sido nomeados juízes para elas. Este fato deu lugar a gerais reparos e causou desgosto entre os moradores do subúrbio à margem esquerda do rio.”
A resposta de José Ignácio de Medeiros, juiz da festa de Santo Amaro, veio uma semana depois, na edição de 29 de janeiro de 1905. Naquele ano, os festejos não foram realizados, e ele justificou a ausência por boicote.
“Causou-me verdadeira estranheza uma notícia do jornal Novidades em que me incriminava o fato de não ter tratado da festa de Santo Amaro, tendo sido, entretanto, nomeado juiz desta festa. Cumpre-me trazer o desmentido a esta notícia. A festa de Santo Amaro não se celebrou este ano, não por minha causa (pois já tinha comprado diversos preparos para ela); deixou ela de ser feita pela razão de não terem sido rezadas as novenas que precedem esta solenidade, isto é, do dia 6 em diante, vindo eu por isso a supor que não se queria que tivesse lugar tal festa, mas somente a de São Sebastião, cujas novenas começaram a 11 deste mês. É esta satisfação que devo dar ao público.”
Além da ausência das novenas, comerciantes de Itajaí e Navegantes também deixaram de apoiar financeiramente a festa de Santo Amaro para investir na festa de Nossa Senhora dos Navegantes, que tinha maior público em Itajaí. Anos mais tarde, a festa de São Sebastião também enfrentou as mesmas dificuldades e deixou de ser realizada, permanecendo apenas a festa de Nossa Senhora dos Navegantes.
João Gaya
Enquanto as festas de Santo Amaro e São Sebastião enfrentavam dificuldades, a festa em homenagem a Nossa Senhora dos Navegantes, que teve sua primeira edição em 1899, conquistava a cada ano mais público. Um dos responsáveis por sua criação e fortalecimento foi João Gaya. Secretário da Prefeitura de Itajaí, ele era devoto da santa e fez de tudo que estava a seu alcance para que Nossa Senhora dos Navegantes se tornasse a padroeira do lugar.
Além de integrar a comissão que construiu a primeira capela de Navegantes, Gaya trouxe de Portugal a imagem de Nossa Senhora dos Navegantes. A imagem foi encomendada a um artesão de Vila Nova de Gaia e adquirida na cidade do Rio de Janeiro, então capital do Brasil. No dia 3 de dezembro de 1899, um domingo, foi realizada a primeira festa oficial.
Apesar de Santo Amaro ser o mais cultuado na comunidade, aos poucos ele perdeu fiéis para Nossa Senhora dos Navegantes, e a festa em homenagem à santa contribuiu para esse processo de transição. Político de destaque, João Gaya usou toda a sua influência para fortalecer a devoção à santa da qual era devoto.
Imprensa
Sua autoridade alcançava o comércio local, que passou a apoiar a festa de Nossa Senhora dos Navegantes em detrimento das festas de Santo Amaro e São Sebastião, que deixaram de ser realizadas por falta de apoio. A imprensa de Itajaí também passou a dar destaque à festa de Nossa Senhora dos Navegantes, com notícias de capa, muitas delas pagas.
Em 1905, a festa de Santo Amaro não foi realizada, e não há menção nos jornais da época a outras edições dos festejos. De santo mais cultuado, Amaro foi aos poucos sendo esquecido pela população. Por outro lado, a devoção a Nossa Senhora dos Navegantes tornou-se cada vez mais forte e popular, fazendo com que a comunidade passasse gradativamente a ser conhecida como Navegantes.
A festa de Nossa Senhora dos Navegantes, promovida todos os anos no dia 2 de fevereiro, contribuiu decisivamente para essa mudança. Em 1912, o Arraial de Santo Amaro passou a ser oficialmente chamado de Arraial dos Navegantes e, em 1962, já emancipado de Itajaí, tornou-se o município de Navegantes.
