Medo

ACADEMIA DE LETRAS DO BRASIL DE SANTA CATARINA – SECCIONAL NAVEGANTES

Acadêmica: Professora Vilma Rebello Mafra, cadeira 14

Entre todas as emoções humanas, talvez nenhuma seja tão persistente quanto o medo. Ele nos acompanha desde os tempos mais remotos, quando nossos ancestrais precisavam perceber qualquer sinal de predador para sobreviver. O cérebro, moldado por milhões de anos de evolução, tornou-se especialista em antecipar perigos. A amígdala — pequena, mas poderosa — reage antes mesmo que possamos pensar. É por isso que o medo é tão rápido, tão instintivo, tão físico.

Mas, ao longo da história, o medo deixou de ser apenas um escudo de proteção. Tornou-se também uma ferramenta social, uma forma de controle. Famílias tradicionais impuseram disciplina severa; escolas, herdeiras de modelos autoritários, reforçaram hierarquias rígidas; religiões, principalmente nas eras coloniais e medievais, usaram imagens de punição eterna para moldar comportamentos. Em apenas alguns séculos de estrutura social organizada, aprendemos a temer não só o que ameaça a vida, mas o que ameaça a obediência.

O medo, então, passou a nos acompanhar como uma sombra educada: sabe quando se aproximar, quando paralisar, quando manipular. Carregamos medos herdados, transmitidos de geração em geração — medos que às vezes já nem têm sentido, mas continuam vivos porque nunca foram questionados.

Na vida adulta, percebemos que os medos mudam de forma. Já não tememos a criatura na floresta, mas tememos a instabilidade, a rejeição, a perda. Tememos não ser suficientes, não corresponder às expectativas, não alcançar aquilo que a sociedade considera sucesso. Tememos as doenças e seus diagnósticos frios, a vulnerabilidade financeira que um único desemprego pode trazer, a violência urbana que se infiltra nas cidades, a imprevisibilidade dos fenômenos climáticos que o próprio ser humano acelerou.

E há ainda outro medo — um que nasce da política. Em muitos países, inclusive no nosso, assistimos à criação de leis que protegem poderosos e silenciam a justiça. Vemos legisladores que deveriam servir ao povo, mas servem a interesses privados. Isso cria um medo diferente: o medo estrutural, o medo de estar desprotegido diante daqueles que deveriam garantir proteção.

Assim, existir no mundo contemporâneo tornou-se uma luta interna e constante. Vencemos um medo, mas outro se levanta. Alguns são reais; outros são fabricados, cultivados pela mídia, pelas tradições, pelos discursos que querem nos manter obedientes. No entanto, apesar do peso dessas sombras, há sempre um espaço onde a coragem se insinua — um gesto pequeno, um pensamento novo, uma recusa silenciosa em se curvar.

Porque, no fundo, viver é aprender a dialogar com o medo, não a eliminá-lo. É perceber que ele existe para nos alertar, mas não para nos aprisionar. É saber que, por trás de cada temor, ainda há um sopro de vida insistindo em seguir adiante.

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