Capitu no mês das mães: a maternidade ferida

ACADEMIA DE LETRAS DO BRASIL DE SANTA CATARINA – SECCIONAL NAVEGANTES

Acadêmica: Luciana Fidelis de Souza da Costa, Doutora em Educação, cadeira 5.

Em maio, quando as homenagens às mães costumam ocupar vitrines, comerciais e mensagens nas redes sociais, talvez valha a pena lembrar de uma das mães mais complexas da literatura brasileira: Capitu, personagem criada por Machado de Assis, em Dom Casmurro. Capitu atravessou décadas sendo julgada muito mais como mulher do que compreendida como mãe, sujeito ou personagem literária.

Durante muito tempo, a pergunta “Capitu traiu ou não traiu?” reduziu uma personagem profundamente humana a um tribunal moral. No entanto, talvez a grande força de Capitu esteja justamente no fato de ela escapar das respostas simples.

Há nela inteligência, sensibilidade, autonomia e, sobretudo, uma postura que desafia os modelos femininos idealizados de sua época. Em uma sociedade que esperava da mulher silêncio e submissão, Capitu pensa, argumenta, escolhe, deseja e ocupa espaços. Talvez por isso tenha sido tão condenada.

Olhar para Capitu no mês das mães nos permite outro deslocamento: perceber que ela também é uma mãe marcada pela suspeita, pelo controle e pela violência simbólica. Sua condição de mãe passa a ser permanentemente questionada pelo olhar desconfiado de Bentinho, marido e narrador da obra. Bentinho transforma o próprio filho em prova de uma possível traição.

Em um dos momentos mais perturbadores do romance, Bentinho chega a cogitar envenenar o próprio filho, Ezequiel, consumido pela obsessão de que a criança seria fruto de uma traição. Capitu presencia o adoecimento da relação familiar provocado pelo ciúme e pela paranoia do marido, vendo seu filho tornar-se alvo do ressentimento paterno.

A cena ultrapassa a dúvida sobre a fidelidade e revela algo ainda mais profundo: o modo como o patriarcalismo pode transformar o amor em posse, suspeita e destruição. Qualquer semelhança com os dias atuais talvez esteja longe de ser mera coincidência.

E é justamente aí que a literatura revela sua potência: ela nos obriga a perceber como certos julgamentos sobre as mulheres atravessam gerações. Capitu não é apenas uma personagem acusada; é também uma mãe submetida a uma estrutura em que sua palavra perde legitimidade diante da narrativa masculina.

A educação literária tem insistido que ler literatura não significa apenas decifrar palavras ou responder perguntas sobre personagens. Ler literatura é construir sentidos sobre a experiência humana, sobre a sociedade e sobre nós mesmos. Personagens como Capitu permanecem atuais porque continuam nos ajudando a pensar as relações humanas, os afetos, as desigualdades e os modos como olhamos para as mulheres.

O crítico literário Antonio Candido defendia que a literatura humaniza porque amplia nossa capacidade de reflexão, sensibilidade e compreensão do outro. Talvez seja justamente isso que Capitu ainda faça conosco: ela nos desconforta porque rompe certezas fáceis, desmonta julgamentos apressados e expõe estruturas que insistem em sobreviver no tempo.

Neste mês das mães, talvez possamos revisitar Capitu não para julgá-la outra vez, mas para escutá-la. No fundo, a grande pergunta de Dom Casmurro talvez nunca tenha sido sobre traição. Talvez a pergunta mais incômoda seja outra: quantas mulheres ainda continuam sendo condenadas apenas porque ousaram existir para além do papel que a sociedade lhes reservou?


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