A farinha que nasceu em Navegantes há mais de 70 anos

Marca tradicional teve origem no engenho de João Clemente Telles, em Escalvados, e se tornou parte da história de Navegantes

Antes dos grandes empreendimentos e da expansão portuária, a farinha de mandioca era um dos produtos que sustentavam a economia e a mesa das famílias navegantinas. Foi nesse cenário que, na década de 1950, nasceu em Escalvados a Farinha Telles, uma marca que atravessou gerações e se tornou parte da história de Navegantes.

​A trajetória da Farinha Telles começou a ser construída pelo fundador João Clemente Telles. Nascido em Tijucas em 1914, chegou a Escalvados após sua família adquirir terras na localidade. Depois de trabalhar com uma padaria, decidiu investir na produção de farinha de mandioca, atividade que daria origem a uma das marcas mais conhecidas da região.

O fundador João Clemente Telles.

​Determinado a construir um engenho de farinha de mandioca nos anos 1950, João Clemente revelou uma engenhosidade incomum. Sem acesso a maquinários industriais, ele próprio projetou e construiu com as próprias mãos todas as peças do engenho, chegando ao feito de montar um trator inteiramente feito de madeira. 

​Diferentemente de muitos produtores vizinhos, que dependiam da tração animal para movimentar as engrenagens dos engenhos — como José André da Silva (Juca), pai de uma de suas noras —, João Clemente buscou a modernidade. Foi pioneiro ao instalar um gerador elétrico próprio, que automatizou parte do processo e transformou a residência da família na única da localidade a contar com iluminação elétrica na época.

O ritual artesanal e o mutirão comunitário

​Apesar da chegada da eletricidade, o coração da fabricação da farinha mantinha sua essência artesanal e comunitária. A mandioca era cultivada nos fundos do próprio engenho e colhida manualmente a cada 18 meses. O processo de descascar a raiz mobilizava todo o bairro: cerca de 30 pessoas da vizinhança, entre mães e filhos, reuniam-se em verdadeiros mutirões. 

​O trabalho era remunerado por balaio cheio. Após o descasque, a mandioca passava pela máquina cevadeira para a moagem bruta, seguia para a prensa de parafuso (conhecida como Toquitom) para a extração da água e retornava à cevadeira para ser esfarelada até virar uma massa crua, fina e solta. 

​O processo culminava no forno de ferro para torrar. A farinha era ensacada em sacas de 45 quilos e distribuída por carroça para comércios em Navegantes, Luiz Alves, Piçarras.    

Sucessão familiar

​Com o falecimento de João Clemente Telles em 1984, aos 71 anos, a continuidade do negócio familiar ficou sob a responsabilidade de seus filhos. Aroldo Telles assumiu o comando operacional, enquanto Wilson Telles ficou à frente da gestão administrativa.

Foi na gestão de Wilson que a empresa deu um salto logístico: aposentaram-se as carroças com a aquisição do primeiro caminhão de entregas, e o próprio João Clemente, antes de partir, havia projetado uma máquina para ensacar a farinha em pacotes de um quilo, formato tradicional das prateleiras dos supermercados. 

​Em 2005, com a morte de Aroldo, seu filho Willian Telles assumiu o legado familiar, estando à frente da empresa desde 2008. Sob sua gestão, o trabalho que era artesanal ganhou equipamentos modernizados, mas sem jamais perder a receita e o rigor mantidos desde 1950. 

​Atualmente, a empresa mantém no mercado marcas consagradas na mesa dos catarinenses, com as farinhas lançadas em 1950 e 1975, além de polvilho doce, polvilho azedo e araruta. 

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