O polêmico nome do Aeroporto de Navegantes

FOTO: Voo da Varig em 1972, dois anos após a transferência do aeroporto de Itajaí para Navegantes. Crédito: Acervo Dagoberto Blaese Junior.

FOTO: Voo da Varig em 1972, dois anos após a transferência do aeroporto de Itajaí para Navegantes. Crédito: Acervo Dagoberto Blaese Junior.

Em dezembro de 2001, um projeto de lei de autoria do então deputado Antônio Carlos Konder Reis (1925–2018), que nomeava o Aeroporto de Navegantes, dividiu a cidade. O nome em questão era o de seu tio, o ex-ministro Victor Konder (1886–1941). A coluna Outros Quinhentos conta nesta edição a origem controversa do nome do Aeroporto de Navegantes.

Enquanto o prefeito Adherbal Ramos Cabral (PMDB) e o presidente da Câmara de Vereadores, Celso dos Passos (PMDB), apoiavam a iniciativa, parte dos vereadores e da população defendia outro nome para o aeroporto,

Entre as opções estavam “Aeroporto Dengo-Dengo” ou simplesmente “Aeroporto de Navegantes”. Blumenau também entrou na discussão e sugeriu o nome do colonizador, o imigrante alemão Hermann Bruno Otto Blumenau.

Sem ser unanimidade, o nome do Aeroporto de Navegantes foi aprovado em 2002.  Crédito: Infraero

Apesar da polêmica, a proposta foi aprovada no ano seguinte. O terminal recebeu oficialmente a denominação de Aeroporto Internacional Ministro Victor Konder em 30 de dezembro de 2002, por meio da Lei nº 10.634, sancionada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e publicada no Diário Oficial da União em 31 de dezembro.

Ao apresentar o projeto, Konder Reis argumentou que Victor Konder, ministro da Viação e Obras Públicas entre 1926 e 1930, foi um dos grandes incentivadores da aviação comercial brasileira e merecia ter seu nome ligado ao aeroporto.

Nome do ministro era uma reivindicação antiga

A homenagem a Victor Konder não surgiu em 2001. Muito antes da transferência do aeroporto de Itajaí para Navegantes, nos anos 1970, já havia um movimento para que seu nome fosse adotado.

Para entender a escolha do nome é preciso também conhecer a história do Aeroporto de Itajaí. O primeiro aeroporto da região foi instalado na década de 1930, em uma pista de mil metros, localizada em uma transversal da rua Uruguai, próximo à Univali.

Com o crescimento da aviação, o aeroporto tornou-se pequeno e foi transferido para a rua Blumenau, em 1949. Desde a morte de Victor Konder, em 1941, seu nome já era cogitado para batizar o aeroporto. Porém, por motivos políticos, foi escolhido o nome do ex-ministro Joaquim Pedro Salgado Filho, morto em um acidente aéreo em junho de 1950.

Dois anos depois, o aeroporto ganhou sua primeira estação de passageiros, inaugurada em setembro de 1952, com o nome Presidente Vargas, em homenagem a Getúlio Vargas. A placa foi descerrada pelo prefeito de Blumenau, Hercílio Deeke. Blumenau, naquele período, exerceu forte influência sobre o desenvolvimento do aeroporto e participou do processo de transferência para Navegantes.

Estação de Passageiros Getúlio Vargas na década de 1950. Crédito: CDMH/Arquivo Público de Itajaí

Após a morte de Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954, o nome de Victor Konder voltou a ser discutido para substituir o de Salgado Filho. Os vereadores de Itajaí reconsideraram a decisão anterior e aprovaram a nova homenagem. Em 10 de julho de 1959, o presidente Juscelino Kubitschek sancionou a Lei nº 3.504, que nomeava oficialmente o terminal de Aeroporto Ministro Victor Konder.

A transferência para Navegantes

A transferência do Aeroporto Ministro Victor Konder para Navegantes começou em 28 de fevereiro de 1961. Naquele dia, o prefeito de Itajaí, Eduardo Solon Canzian (UDN), sancionou a Lei nº 369, declarando de utilidade pública a área destinada ao novo aeroporto, e a Lei nº 370, autorizando sua desapropriação e doação ao Ministério da Aeronáutica.

O processo, porém, foi lento. Somente em 1970, com a criação do I Distrito Industrial de Itajaí no antigo terreno do aeroporto, a transferência foi concluída. A decolagem do avião comercial PP-VDT, da Viação Aérea Rio-Grandense (Varig), para São Paulo, na manhã de 12 de março de 1970, marcou a inauguração oficial do Aeroporto de Navegantes.

Em 1975, o aeroporto entrou em obras para ampliação da pista e permaneceu fechado por dois anos, período em que os voos foram transferidos para Joinville. Reaberto em 1977, passou a ser chamado de Aeroporto de Navegantes e, em 30 de dezembro de 2002, voltou a receber oficialmente o nome de Aeroporto Internacional Ministro Victor Konder.

Decisão do ministro Victor Konder em 1927 deu início aos primeiros voos comerciais no Brasil.  Crédito: CDMH/Arquivo Público de Itajaí

Pioneiro na aviação comercial brasileira

Victor Konder nasceu em Itajaí, em 21 de fevereiro de 1886. Filho de um professor alemão natural de Schweich, que chegou ao Brasil em 1872, iniciou os estudos em Blumenau e concluiu o ensino secundário em São Leopoldo (RS). Formou-se em Direito pela Faculdade de Direito de São Paulo e retornou a Itajaí, onde atuou como advogado, empresário e redator do jornal “Novidades”, fundado por seu irmão Adolfo Konder.

Foi secretário dos Negócios da Fazenda, Viação, Obras Públicas e Agricultura no governo de Hercílio Luz, entre 1922 e 1926. Também foi deputado estadual por duas legislaturas e deputado federal por Santa Catarina, cargo que deixou ao aceitar o convite do presidente Washington Luís (PRP) para assumir o Ministério da Viação e Obras Públicas, onde permaneceu entre 1926 e 1930.

À frente do ministério, recebeu o alemão Otto Ernst Meyer, ex-oficial do Serviço Aeronáutico Alemão, interessado em implantar voos comerciais no Brasil. Meyer, que em 1927 criou a Varig, convidou Victor Konder para participar do voo inaugural da companhia aérea alemã Condor Syndikat.

O hidroavião Atlântico, um modelo Dornier Wal, decolou do Rio de Janeiro no dia 1º de janeiro daquele ano com destino a Florianópolis. Além do ministro e de Otto Meyer, a bordo estavam também alguns jornalistas. O piloto que conduziu a aeronave, que pousou no rio Itajaí-Açú no mesmo ano, foi o experiente comandante Rudolf Cramer Von Clausbruch.

Os alemães empenharam-se em mostrar a segurança e o conforto do Dornier Wal, e conseguiram impressionar o ministro Victor Konder, pois o governo concedeu à empresa que Otto Meyer representava, a Condor Syndikat, em 26 de janeiro de 1926, autorização para operar uma linha aérea, no território nacional, pelo prazo de um ano, já que o Condor Syndikat era uma empresa estrangeira e havia essa limitação legal. Começava ali a história da aviação comercial brasileira que segue até hoje.


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

error: Conteúdo protegido!