O Natal dos Pobres

Natal dos Pobres de 1953, em Florianópolis. Na foto, de óculos escuros, a então primeira-dama de SC, Marieta Konder Bornhausen. Crédito: CDMH/Arquivo Público de Itajaí

Se existe uma data no calendário que desperta solidariedade nas pessoas, essa data é o Natal. Todos os anos, entidades, igrejas e associações de moradores se mobilizam para oferecer um Natal mais digno àqueles que, por diversos motivos, não têm nada, não apenas nessa época, mas durante todo o ano. Essa corrente de solidariedade já foi mais forte antigamente e mobilizava amplos setores da sociedade de Itajaí e Navegantes. A ação social recebeu o nome de “Natal dos Pobres”. A coluna “Outros quinhentos” conta como acontecia essa mobilização nas primeiras décadas do século XX.

Naquela época, a maioria das famílias carentes não recebia qualquer tipo de ajuda por parte do governo. Tudo ficava a cargo de ações sociais organizadas por diferentes instituições, igrejas ou grupos da sociedade civil. O “Natal dos Pobres” foi uma dessas iniciativas e se referia a diversas ações de caridade e assistencialismo que ocorriam anualmente em várias cidades do Brasil e de Portugal.

O objetivo da campanha era proporcionar dignidade e auxílio material às populações carentes durante o período das festas, geralmente por meio da distribuição de alimentos, roupas, agasalhos e brinquedos, ou ainda pela organização de jantares comunitários. Não existia uma única campanha nacional centralizada com esse nome. Em vez disso, diferentes entidades promoviam ações semelhantes.

As iniciativas sociais eram viabilizadas por meio de arrecadações realizadas em bazares, feiras de trabalhos manuais e concertos beneficentes. As doações eram entregues, em geral, no dia de Natal ou na véspera.

A primeira iniciativa registrada do “Natal dos Pobres” é de 1904 e foi publicada no jornal O Pharol, em 23 de dezembro daquele ano.

“A Conferência de São José aceita qualquer donativo em gêneros alimentícios, fazenda, roupas para ser distribuído aos desvalidos da sorte e às crianças pobres no dia de Natal. Aos generosos pais e mães de famílias e crianças felizes, que nesse dia festejam o nascimento do Menino Deus, pedimos que não deixem de ficar no olvido tão justo apelo. Depois da missa distribuem-se esmolas aos pobres.”

No dia 25 de dezembro de 1908, os donativos arrecadados, entre eles alimentos, vestuário e doces, foram distribuídos após a missa na Igreja Matriz de Itajaí. Foram contempladas 54 famílias de Itajaí e Navegantes.

No Natal de 1910, os donativos foram entregues nas residências e comércios de Bruno Malburg, Pedro Bauer, Olympio Miranda, Bento de Oliveira, Agostinho Fernandes Vieira, José Berti, Ângelo Rodi, Manoel Fernandes Vieira, José Antônio dos Anjos e Guilherme Linhares. Foram arrecadados gêneros alimentícios, roupas e dinheiro, que foram distribuídos no dia de Natal às famílias pobres.

As Magnólias

Uma entidade que teve papel importante nas campanhas do “Natal dos Pobres” no início do século XX foi a Sociedade das Magnólias. Criada em 1905 por mulheres, a sociedade promovia bailes, bazares e outros eventos sociais para arrecadar dinheiro e alimentos destinados aos mais necessitados.

As Magnólias possuíam uma pequena orquestra de cordas. Com a regência da maestrina, a pianista Alaíde Castilho, os concertos beneficentes promovidos pelas moças também contribuíam para as campanhas sociais da sociedade.

Desde a sua fundação, as Magnólias colaboraram com a campanha “Natal dos Pobres” por meio da organização de bazares. Um deles ocorreu em 1911, precedido por uma campanha de arrecadação de produtos que seriam comercializados no evento.

Entre os itens arrecadados estavam latas de marmelada, garrafas de água florida, canequinhas, caixas de pó de arroz, xícaras, sabonetes, vasos, brinquedos, canetas-tinteiro, caixas de sardinha, cortes de vestido, porta-nozes, pratos para torta, maços de cigarros, toalhas bordadas em filó, vinho do Porto e chapéus.

O bazar foi realizado no dia 12 de novembro de 1911, na Sociedade Estrela do Oriente. Foram arrecadados 632.900 réis; porém, após o pagamento de despesas como aluguel do espaço, anúncios em jornais e salários de funcionários, restaram 447.400 réis. O valor foi utilizado para a compra de alimentos e roupas destinadas às famílias pobres, distribuídos no dia 25 de dezembro de 1911.

Tômbola

Entre as diversas iniciativas para arrecadar recursos para o “Natal dos Pobres” também estava o jogo. No dia 15 de dezembro de 1923, às 9h30, foi realizado, na praça Vidal Ramos, em frente à igrejinha da Imaculada Conceição, em Itajaí, um jogo de tômbola que reuniu dezenas de pessoas. A tômbola era um jogo italiano que deu origem ao atual bingo e também era tradicional na época natalina. A informação foi publicada no jornal O Pharol, em 22 de dezembro de 1923.

“Conforme noticiamos sábado passado, realizou-se no domingo último a extração da tômbola que a Conferência Vicentina organizou em benefício do Natal dos Pobres. O ato foi assistido por grande número de pessoas, dentre as quais podemos notar os senhores doutor Alfredo Trompowsky, íntegro juiz de direito da Comarca; Carlos Seara, digno presidente do Conselho Municipal; tenente Antônio Cunha, correto delegado de polícia; Manoel Vieira Garção; todos os membros da Conferência de São Vicente de Paulo; Irineu Bornhausen; Bonifácio Schmidt; várias senhoras e senhoritas.

Na próxima segunda-feira, 24, a Conferência vai distribuir aos pobres o que angariou em donativos e com a tômbola. Sabemos que já atinge a 1.500.000 réis a importância em poder do presidente da Conferência para aquela piedosa distribuição.”

O termo “Natal dos Pobres” continua a ser utilizado atualmente por organizações como a Toca de Assis e a Associação Aliança de Misericórdia, mantendo viva essa tradição de solidariedade na época natalina.


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