— Então o ministro acha que não sou incapaz, um inútil? Quando Machado de Assis fez essa pergunta, em 1902, o maior nome da literatura brasileira atravessava um momento difícil. Doente e deprimido, enfrentava humilhações e constrangimentos na repartição pública onde trabalhava. A história do “Bruxo do Cosme Velho” mudou quando o itajaiense Lauro Müller assumiu o Ministério da Viação e Obras Públicas. No mês em que Itajaí celebra seus 166 anos, a coluna “Outros Quinhentos” conta a ligação de Lauro Müller com Machado de Assis.
Monarquista, Machado de Assis foi afetado após a Proclamação da República, em 1889. Servidor de carreira, perdeu espaço no serviço público durante os governos dos presidentes, Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto e Prudente de Morais. Deixou o cargo de diretor-geral de Contabilidade para exercer outras funções. Apesar de já ser um escritor consagrado, Machado de Assis tinha como principal fonte de renda o salário de funcionário público.
Em 1898, Campos Sales foi eleito o quarto presidente da República. Com a saída de Severino Vieira do Ministério da Viação e Obras Públicas, o presidente convocou às pressas o então ministro da Justiça e futuro presidente da República, Epitácio Pessoa. Mesmo de forma interina e conhecendo a situação delicada em que se encontrava o escritor, Epitácio Pessoa nomeou Machado de Assis seu secretário.
A boa ação do ministro, contudo, não ajudou a melhorar o ânimo do escritor. Sem experiência na função, o trabalho do autor de “Quincas Borba” foi alvo de críticas. A escritora Lúcia Miguel Pereira deixou palavras nada lisonjeiras sobre sua atuação como secretário.
“Um grande escritor, mas um péssimo secretário.”

Lauro Müller
A sorte do “Bruxo do Cosme Velho” mudou quando Rodrigues Alves foi eleito presidente da República, em 1902, e escolheu para ministro da Viação e Obras Públicas o engenheiro militar Lauro Severiano Müller, um dos tenentes que ajudaram a derrubar a Monarquia e proclamar a República. Após anos de humilhações e constrangimentos no serviço público, o escritor encontrou em Lauro Müller alguém disposto a lhe devolver o devido reconhecimento.
Lauro Müller era uma figura de enorme prestígio nacional e transitava no mesmo círculo da elite intelectual e política carioca dos primeiros anos do século XX, frequentado por Machado de Assis. Embora estivessem em campos ideológicos opostos, Lauro Müller era um republicano convicto, enquanto Machado de Assis mantinha simpatia pela Monarquia, o político itajaiense nutria grande admiração pelo trabalho do escritor.
E foi essa admiração que mudou a vida de Machado de Assis no final de 1902. Em 18 de novembro daquele ano, Lauro Müller o reconduziu ao cargo de diretor-geral de Contabilidade, função que exerceu até o fim da vida. Tratava-se de um posto tão prestigiado que chegou a ser cobiçado por outro grande escritor, Artur Azevedo, também funcionário público. O autor de “A Capital Federal”, porém, desistiu da disputa assim que soube para quem seria destinada à vaga.
— Se é para Machado de Assis, não sou mais candidato. Ou, melhor, sou candidato apenas a ser o amanuense que lavrará o decreto de sua integração.
Segundo o escritor Medeiros de Albuquerque, foi o próprio Lauro Müller quem pediu a seu secretário que sondasse Machado de Assis para saber se ele desejava retornar ao cargo. Comovido, o escritor respondeu com a pergunta que abre esta coluna.
— Então o ministro acha que não sou incapaz, um inútil?
A decisão do itajaiense garantiu estabilidade e dignidade financeira a Machado de Assis em seus últimos anos de vida. Como diretor-geral de Contabilidade, ele supervisionava as contas das grandes obras públicas da modernização republicana empreendidas por Lauro Müller, incluindo a reforma do Porto do Rio de Janeiro.
O escritor era conhecido pela pontualidade e pelo rigor com as contas públicas. O cargo representava o topo do funcionalismo público da época. O salário lhe assegurou um padrão de vida confortável e a estabilidade necessária para cuidar da saúde debilitada por causa da epilepsia e enfrentar o doloroso luto pela morte de sua esposa, Carolina, em 1904.

Academia Brasileira de Letras
A ligação entre Machado de Assis e Lauro Müller vem de antes da nomeação do itajaiense para o ministério. Em 1897, o escritor acompanhava de perto a tramitação e cobrava aliados políticos pela criação da Academia Brasileira de Letras no Congresso Nacional. Em 11 de novembro daquele ano, Lauro Müller enviou uma carta a Machado de Assis.
“Vejo que anda bem informado, porque, de fato, entreguei o projeto da Academia ao senador Benedito Leite, maranhense e, portanto, ateniense, quer dizer, homem de saber e de bom parecer. Quanto à reunião de hoje, teremos nova reunião depois de amanhã e, nesta, diz o senador B. Leite que ouviremos o seu parecer.”
No dia 28 de novembro, o poeta Lúcio de Mendonça comunicou a Machado de Assis a aprovação do projeto no Senado. O engajamento do escritor foi coroado com a sanção da lei que criava a Academia Brasileira de Letras pelo presidente Campos Sales.

Esaú e Jacó
Em artigo publicado na revista “Blumenau em Cadernos”, de janeiro de 1960, intitulado “Machado de Assis e Lauro Müller”, Arnaldo Brandão destaca que o apoio do político itajaiense também devolveu ao escritor o entusiasmo pela literatura.
“Renasce então o interesse pelas letras. Começa a escrever um novo romance, ‘Esaú e Jacó’, em que fixa o período de transição do Império para a República.”
Depois de “Esaú e Jacó”, Machado de Assis publicou ainda “Relíquias de Casa Velha” (1906) e “Memorial de Aires” (1908). O escritor morreu em 29 de setembro de 1908, aos 69 anos, em sua casa na rua do Cosme Velho, Rio de Janeiro, vítima de complicações decorrentes de um câncer na língua.
Mesmo sem ter publicado uma obra literária, Lauro Müller foi eleito, em 14 de setembro de 1912, o terceiro ocupante da Cadeira 34 da Academia Brasileira de Letras. O político faleceu no Rio de Janeiro, em 30 de julho de 1926.
