Os 60 anos da chegada do primeiro sinal de televisão

TV tupi, que teve Silvio Santos na sua grade de programação, foi o primeiro canal sintonizado em 1966. Crédito: Wikimedia Commons

No dia 19 de maio de 1966, uma quinta-feira, os moradores de Navegantes, Itajaí, Penha e Balneário Piçarras que tinham o privilégio de possuir um televisor em casa puderam sintonizar, pela primeira vez, um canal de televisão. Tudo graças à instalação de uma repetidora do Canal 6 da TV Paraná, na Ponta da Vigia, em Penha.

A coluna “Outros Quinhentos” conta como aconteceu a instalação, quanto custava um televisor na época e como eram os programas, novelas e filmes transmitidos no único canal de televisão captado na região.

A iniciativa de trazer o primeiro sinal de televisão partiu do senhor Nereu Schiefler, um dos responsáveis pela instalação da Rádio Difusora de Itajaí na década de 1940. Schiefler havia conseguido captar o sinal da TV Tupi do Rio de Janeiro por meio de uma antena instalada em sua casa, em Itajaí, segundo o jornal Itajaí, de 22 de julho de 1961.

Liderado por Nereu Schiefler, um grupo de proprietários de televisores iniciou um movimento para a instalação de uma retransmissora de televisão na região. Em dezembro de 1965, com o apoio de lojistas de Itajaí, a aparelhagem foi adquirida e colocada em teste durante uma semana.

Experiências foram realizadas em diversos morros da região, inclusive no bairro Gravatá, em Navegantes, mas sem sucesso na captação de qualquer canal de televisão.

Nathalia Timberg e Isaura Bruno na novela “O direito de nascer”,  grande sucesso no Brasil nos anos 60.  Crédito: Reprodução/TV Tupi

A mudança veio no ano seguinte, após um acordo com o Canal 6 da TV Paraná, de Curitiba. A TV Paraná era uma das afiliadas da TV Tupi, a primeira emissora de televisão brasileira. No dia 18 de maio de 1966, a aparelhagem repetidora do Canal 6 chegou a Itajaí e, no dia seguinte, 19 de maio, foi finalmente instalada na Ponta da Vigia, em Armação, Penha.

O jornal A Nação, de 24 de maio de 1966, pertencente ao grupo Diários Associados, de Assis Chateaubriand, o Chatô, também proprietário da TV Tupi, anunciou a novidade.

“Já se encontra em pleno funcionamento, com perfeição e nitidez, a repetidora adquirida na Guanabara para uma associação recentemente fundada em Itajaí. Desde o dia 19 do corrente, os telespectadores de nossa cidade vêm se deliciando com os bons programas do Canal 6 e satisfeitos em poder assisti-los.

A iniciativa vem sendo coroada de pleno êxito, contando agora com apoio integral daqueles que sempre estiveram ao lado das grandes causas. A televisão, por incrível que pareça, é uma diversão útil e instrutiva, proporcionando momentos agradáveis para o seu grande público.

Felicitamos os senhores Nereu Schiefler, Francisco Pfeilsticker e Francisco Santa Rodrigues pelo trabalho que vêm apresentando, não medindo esforços para que a população encontre mais um divertimento em seu próprio lar. Resta agora que o povo colabore com esta grande iniciativa, para que tenhamos, a cada dia que passa, diversão sadia e instrutiva.”

Item de luxo

Presente em praticamente todos os lares brasileiros atualmente, a televisão era um item de luxo na década de 1960, acessível a poucas famílias. Para se ter uma ideia da dificuldade enfrentada por um trabalhador para adquirir um aparelho em 1966, um televisor preto e branco popular custava, em promoção, 469 mil cruzeiros, o equivalente a quase seis salários mínimos da época. Algumas marcas, como a Semp, chegavam a custar 783 mil cruzeiros, cerca de nove salários mínimos, em maio de 1966.

Televisor da marca Semp chegava a custar quase dez salários mínimos na época. Crédito: Divulgação

Em junho daquele ano, a Paróquia de Itajaí realizou um bingo para arrecadar recursos destinados a obras sociais e culturais da igreja. O primeiro prêmio era um televisor Admiral, conquistado por uma moradora da Rua 15 de Novembro, em Itajaí. No bingo, o único ganhador de Navegantes foi um morador do bairro São Pedro (Pontal), premiado com um terno de casimira.

Além da Admiral, consumidores endinheirados podiam adquirir televisores das marcas Ariston, Philco, Philips, General Electric (GE), Colorado, Columbia, Empire, Franklin, Teleunião e Orbiphon. Estas duas últimas pertenciam a uma fábrica de Porto Alegre que montava aparelhos em parceria com a alemã Siemens.

Na época, Representações Rebello Ltda, Lojas Zacarias e Dutra & Cia eram as três lojas de Itajaí que comercializavam televisores. A Representações Rebello Ltda trabalhava com a marca Ariston, as Lojas Zacarias vendiam aparelhos da marca Semp, enquanto a Dutra & Cia atuava com diversas marcas disponíveis no mercado.

Em 1970, foi instalada em Itajaí uma fábrica da marca italiana Ariston, que produzia cerca de 50 aparelhos por mês. A fábrica pertencia a Pedro Paulo Rebello, proprietário das Representações Rebello. Apesar da marca focar em eletrodomésticos, foi a fábrica de Itajaí a produzir seus primeiros televisores.

Novelas, filmes e séries

Quem sintonizou o Canal 6 da TV Paraná naquela quinta-feira, 19 de maio de 1966, teve acesso a uma programação bastante variada. A TV Paraná era afiliada da TV Tupi, emissora que tinha em sua grade nomes como Moacyr Franco, Dercy Gonçalves e, já na década de 1970, o apresentador Silvio Santos, além das novelas, consideradas o carro-chefe da programação. “O direito de nascer” foi a novela de maior sucesso dos anos 60.

Pelé na Copa do Mundo de Futebol de 1966. Crédito: Reprodução/Diário da Manhã (RJ)

Diferentemente dos dias atuais, a programação televisiva começava bem mais tarde. Ao meio-dia no Rio de Janeiro e em São Paulo, e apenas às 16h30 em Santa Catarina. Naquele 19 de maio de 1966, a transmissão teve início às 16h30 com o programa de variedades “Tevelândia”, exibido ao vivo e em preto e branco.

A programação seguiu com as novelas “A inimiga”, “Amor tem cara de mulher” e “Deusa vencida”, além das séries “Zorro” e “Bonanza”, do desenho animado “Popeye” e de um telejornal paranaense às 19h45. Às 21h10, com duração de 40 minutos, foi ao ar mais um capítulo da novela “O direito de nascer”. Em seguida, era exibido o programa “A praça da alegria”, apresentado por Manoel de Nóbrega, pai de Carlos Alberto de Nóbrega, do humorístico “A praça é nossa”, do SBT. A programação encerrava às 23h40 com o jornal “Diário do Paraná na TV”.

Copa do Mundo

Quem possuía um televisor em 1966 também acompanhou, pela primeira vez, partidas da Copa do Mundo Fifa de 1966, disputada naquele ano na Inglaterra. As transmissões eram gravadas em videotape.

A seleção brasileira estreou diante da Bulgária e venceu por 2 a 0, com gols de Garrincha e Pelé. Essa foi a última partida em que às duas lendas do futebol atuaram juntas. Com Pelé e Garrincha em campo, o Brasil jamais perdeu uma partida.

Sem Pelé, alvo da forte marcação búlgara, a seleção perdeu para a Hungria por 3 a 1. Na última partida da fase de grupos, e agora sem Garrincha em campo, o Brasil voltou a ser derrotado, desta vez por Portugal, liderado por Eusébio, também por 3 a 1.

“A praça da alegria”, apresentado por Manoel de Nóbrega, foi um dos programas transmitidos pela TV Tupi no dia 19 de maio de 1966. Crédito:  Reprodução/www.al.sp.gov.br 

Apesar da campanha desastrosa, uma das piores da história da seleção brasileira, as transmissões dos jogos, mesmo gravadas, impressionaram os telespectadores de Navegantes e região.

Diversão durou pouco

Sem autorização do Conselho Nacional de Telecomunicações (Contel) para operar o Canal 6 da TV Paraná na região, o sinal foi cortado no final de julho de 1966, apenas dois meses após o início das transmissões. O jornal A Nação, de 28 de julho de 1966, noticiou a mobilização do grupo Itavisão para restabelecer o sinal. O Itavisão foi um clube fundado em 1966 com o objetivo de reunir apreciadores de televisão na região.

“A cidade inteira está sentindo a falta e comentando a paralisação da repetidora de televisão, a qual se encontra instalada na localidade de Armação e que vinha servindo de grande entretenimento às pessoas possuidoras do aparelho competente.

A reportagem Associada, inteirada das reclamações do público, esteve na tarde de terça-feira na Delegacia Regional de Polícia para inteirar-se das circunstâncias que motivaram o fechamento da casa onde se encontra instalada a aparelhagem da repetidora. A reportagem Associada esteve ainda em contato com o doutor Francisco José Pfilsticker (Téca), presidente do Itavisão, que declarou o seguinte:

TV Tupi, primeiro canal sintonizado na região, saiu do ar em 1980. Crédito: Reprodução/TV Tupi

— A documentação solicitando autorização para o funcionamento da repetidora já foi encaminhada ao Contel, por intermédio do representante do Canal 6, e quando estivermos de posse do protocolo respectivo, faremos tudo para que retorne a funcionar. Vamos aproveitar a oportunidade da paralisação para construirmos uma estação repetidora mais moderna. Podemos assegurar aos possuidores de TV que dentro de nove ou dez dias a repetidora estará no ar, para satisfação dos telespectadores de Itajaí e cidades vizinhas.”

Sinal restabelecido

Com a manchete “Povo de Itajaí satisfeito com a volta da televisão: Contel já concedeu autorização”, o mesmo jornal, em sua edição de 16 de agosto de 1966, anunciava o restabelecimento do sinal para a alegria de quem possuía um televisor em casa.

“A população de Itajaí recebeu com aplausos a notícia por nós divulgada, alusiva à liberação, por noventa dias, da repetidora de televisão que se encontra instalada no balneário de Armação.”

Com a chegada da TV Coligadas de Blumenau, afiliada da Rede Globo, uma repetidora foi instalada no Morro do Brilhante, em Itajaí. No lugar da TV Paraná, a TV Tupi continuou transmitindo pela TV Cultura de Florianópolis, em 1970, sendo a primeira emissora a operar seu sinal no Morro da Cruz.

Em crise, a TV Tupi, o primeiro canal sintonizado na região, encerrou suas atividades em 1980. A antiga emissora foi dividida entre o SBT, de Silvio Santos, e a TV Manchete, de Adolpho Bloch, que encerrou suas transmissões em 1999.


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