Bombas na rede: A história dos morteiros encontrados por pescadores de Navegantes

Morteiro foi encontrado com pescador no bairro Gravatá. Crédito: Divulgação

POR ROGÉRIO PINHEIRO

Nem tudo que cai na rede é peixe. O ditado popular sugere cautela diante de tudo o que encontramos pelo caminho. Foi o que aconteceu com pescadores de Navegantes, que encontraram em suas redes de pesca dois morteiros, artefatos explosivos utilizados pelas Forças Armadas. História de pescador ou não, a coluna “Outros Quinhentos” conta essa curiosa história que movimentou o mês de março de 2005 em Navegantes. 

A história começa com uma ocorrência policial. No dia 29 de março de 2005, uma terça-feira, por volta das 13 horas, a Polícia Militar (PM) recebeu uma ligação. Um homem carregava uma bomba na avenida Prefeito José Juvenal Mafra, antiga avenida Armação, no bairro Gravatá. Uma viatura da PM foi até o local e encontrou um pescador de 22 anos com o artefato explosivo.

Os policiais perguntaram ao jovem onde ele havia adquirido o morteiro. Segundo o pescador, a bomba apareceu em uma rede de pesca, na costa do Rio de Janeiro, quando ele estava embarcado. O Jornal de Santa Catarina de 30 de março de 2005, com a manchete “Pescadores arrastam torpedos da Marinha”, noticiou o fato. Apesar de informado pelo jornal como sendo um torpedo, o material era, na verdade, munição de morteiro ou granada de morteiro.

Morteiros são utilizados pelas Forças Armadas. Crédito: Blog Operações Militares 

“Dois artefatos explosivos, similares aos torpedos utilizados pela Marinha do Brasil, foram apreendidos pela Polícia Militar ontem à tarde. O material bélico estava com um pescador, que fisgou o explosivo na rede de pesca em alto-mar, no litoral do Rio de Janeiro. O armamento é idêntico a um outro resgatado pela PM e destruído pelo Exército no segundo semestre do ano passado. Tinha alto poder de destruição.”

O artefato explosivo foi apreendido e encaminhado à 3ª Companhia da Polícia Militar, no centro da cidade, hoje o 25º Batalhão da PM de Navegantes. A bomba foi enviada posteriormente para o 23º Batalhão de Infantaria de Blumenau, onde peritos analisaram o artefato e realizaram a detonação.

Não foi o primeiro explosivo encontrado

Como informou o Jornal de Santa Catarina, o morteiro encontrado com o pescador na avenida prefeito José Juvenal Mafra, no dia 29 de março, não foi o primeiro apreendido pela Polícia Militar em Navegantes. No segundo semestre de 2004, a PM apreendeu um morteiro com um adolescente de 16 anos no bairro São Pedro, o Pontal. A notícia também foi publicada no Diário do Litoral (Diarinho) de 30 de março de 2005.

“Parece que os pescadores de Navega City têm uma atração por morteiros. No ano passado, a polícia encontrou um destes bichinhos com um menor de 16 anos. O trambolho estava escondido em cima do guarda-roupa do guri, na rua José Domingos Ferreira, bairro São Pedro. De acordo com a mãe do garoto, o menor comprou o explosivo por R$ 10,00 de um pescador que arrastou o troço do mar. Empolgado, o adolescente pretendia pintar a munição e decorar o seu quarto com o objeto exótico.”

Sobre a apreensão do morteiro com o pescador de 22 anos, o Diarinho informou que, apesar do estado precário da bomba, seu poder de destruição, caso fosse acionada, poderia atingir um alcance de cerca de 25 metros.

Arma também foi usada na Segunda Guerra Mundial. Na foto, pracinhas da FEB na Itália. Crédito: Monumento Nacional aos Mortos na Segunda Guerra Mundial

“O material, que estava em péssimo estado de conservação, foi apreendido e encaminhado à 3ª Companhia da PM, no centro da cidade. Peritos do 23º Batalhão de Infantaria de Blumenau foram chamados para analisar e possivelmente detonar o explosivo. O morteiro tem quase 60 centímetros e já está todo enferrujado. Se a bagaça tiver o mesmo poder de explosão que a encontrada anteriormente, pode atingir um raio de 25 metros, quando acionado.”

Outros registros

Encontrar um morteiro no mar ou em rios não é tão raro quanto se imagina. Todos os anos, projéteis ou granadas de morteiro, como são chamados esses artefatos explosivos, são encontrados. Embora não tenha havido confrontos diretos na região durante a Segunda Guerra Mundial, o Brasil, após entrar no conflito ao lado dos Aliados, reforçou e armou trechos estratégicos de sua costa, incluindo pontos do litoral catarinense.

Segundo o blog Operações Militares, o morteiro é uma arma de uso coletivo destinada a prover apoio de fogo imediato às tropas, por meio do lançamento de granadas em trajetória balística, normalmente em tiro vertical, com ângulos iguais ou superiores a 45 graus.

As apreensões mais recentes de morteiros em Santa Catarina ocorreram em 2023, na cidade de Ermo, no sul do Estado. Um pescador encontrou um morteiro de 90 mm às margens do rio Itoupava. O artefato foi transportado pelo pescador até a casa de um sargento, que acionou o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope). O morteiro acabou sendo detonado pelos policiais.

O caso mais recente foi registrado no dia 27 de janeiro deste ano, no município de Atalanta, no Alto Vale do Itajaí. Um morador encontrou um morteiro e entregou o artefato ao Grupo da Polícia Militar de Atalanta, pertencente à 4ª Companhia do 13º Batalhão de Polícia Militar.

Ao notar que se tratava de uma bomba, o morador recolheu o objeto e entregou no quartel da PM. Em seguida, o Batalhão de Operações Policiais Especiais foi então acionado, junto com policiais do Esquadrão Antibombas, da Companhia de Operações, Busca, Resgate e Assalto (Cobra), que fizeram a detonação do morteiro.  

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *