Em apenas 13 dias, dois professores da rede municipal de ensino de Navegantes morreram por suicídio. São duas vidas interrompidas e duas famílias que agora convivem com uma ausência que não pode ser medida.
Não cabe a nós procurar uma explicação simples para essas mortes. O suicídio é um fenômeno complexo, que pode envolver diferentes fatores e circunstâncias. Também não sabemos — e não devemos presumir — o que cada um desses professores enfrentava.
Mas os dois casos nos colocam diante de uma pergunta que precisa ser feita: estamos oferecendo aos profissionais da educação espaços suficientes para falar quando não estão bem?
Professores cuidam diariamente de crianças e adolescentes. Lidam com cobranças, responsabilidades, conflitos, dificuldades familiares dos alunos e tantas outras situações que fazem parte da rotina escolar. Mas quem cuida de quem cuida?
Talvez seja o momento de Navegantes discutir a criação de uma estrutura permanente de acolhimento psicológico para os profissionais da educação. Não como resposta a essas duas mortes, nem como tentativa de encontrar uma causa para elas, mas como uma ferramenta de cuidado e prevenção.
Um espaço onde um professor possa procurar ajuda antes que o sofrimento se torne insuportável. Onde pedir atendimento não seja visto como fraqueza, mas como uma forma de cuidar de si.
E essa conversa precisa chegar principalmente aos homens. Os dois casos registrados recentemente em Navegantes envolvem homens. Quando se fala em saúde mental e prevenção ao suicídio, é importante lembrar que eles estão no centro dessa questão: no Brasil, o risco de morte por suicídio entre homens é significativamente maior que entre mulheres, segundo dados do Ministério da Saúde. Em 2019, a taxa de mortalidade por suicídio foi de 10,7 por 100 mil entre homens, contra 2,9 por 100 mil entre mulheres.
Ainda assim, falar sobre sofrimento, pedir ajuda e procurar atendimento psicológico pode continuar sendo difícil para muitos.
Nem sempre quem está sofrendo parece estar mal. Uma pessoa pode continuar trabalhando, convivendo com os colegas, participando de atividades e cumprindo suas responsabilidades enquanto enfrenta uma dor que ninguém consegue enxergar.
Por isso, talvez o principal alerta deixado por essas duas mortes seja justamente este: precisamos prestar mais atenção uns nos outros.
A escola ensina, acolhe, orienta e transforma vidas. Quem trabalha nela também precisa ter a possibilidade de ser acolhido.
