A centenária Colônia dos Pescadores de Navegantes

Colônia de Pescadores de Navegantes foi fundada no dia 28 de janeiro de 1922.

Após o fim da Primeira Guerra Mundial, o governo brasileiro passou a olhar com maior preocupação para a defesa de sua imensa faixa litorânea. Sem efetivo militar capaz de proteger todas as praias do país, a Marinha de Guerra iniciou um amplo processo de nacionalização da pesca, que até então estava nas mãos de armadores portugueses.

Além de reorganizar e fiscalizar o setor pesqueiro, o objetivo também era preparar os pescadores para atuarem como força auxiliar na defesa nacional. Foi nesse contexto que surgiram as primeiras colônias de pescadores, entre elas a Colônia de Pescadores Doutor Lauro Müller Z-25 de Navegantes.

A dependência histórica do Brasil em relação a Portugal no setor pesqueiro vinha de longe. Desde 1785, um decreto permitia a pesca industrial apenas a armadores portugueses. Mesmo após a Proclamação da República, em 1889, a norma continuou em vigor, ignorada por sucessivos governos. Somente após a Primeira Guerra o Estado brasileiro voltou seus olhos para o tema e, no governo de Epitácio Pessoa, iniciou o processo de nacionalização, que incluía a criação oficial de núcleos organizados de pescadores.

Em 1921, o cruzador auxiliar “José Bonifácio” passou a percorrer o litoral do país com a missão de organizar esses núcleos pesqueiros. A expedição era comandada pelo capitão de fragata Frederico Villar. Quando a notícia da aproximação do navio chegou ao litoral catarinense, os pescadores de Navegantes, antecipando-se ao Estado, fundaram por conta própria sua colônia.

Assim, no dia 28 de janeiro de 1922, em uma sala da Câmara de Vereadores de Itajaí, foi oficialmente criada a Colônia de Pescadores Doutor Lauro Müller Z-25. Na mesma ocasião, o navegantino Lindolfo Caetano Vieira foi eleito seu primeiro presidente.

Lindolfo Caetano Vieira foi o primeiro presidente da Colônia de Pescadores de Navegantes. Na foto, Lindolfo e sua família. 
Crédito: CDMH/Arquivo Público de Itajaí

Poucos dias depois, a chegada do cruzador auxiliar “José Bonifácio” consolidou a iniciativa. Frederico Villar certificou formalmente a entidade. No mesmo período, os pescadores de Itajaí também fundaram a Colônia Barão de Batovi Z-17.

No dia 25 de junho de 1922, o capitão de fragata Frederico Villar visitou a Colônia de Pescadores de Navegantes. O relato foi publicado na edição anual da revista “A Voz do Mar”, órgão oficial da Marinha do Brasil.

“No dia 25 de junho visitei, como representante de ‘A Voz do Mar’, a Colônia de Pescadores Lauro Müller Z-25, em sua sede provisória, no arraial dos Navegantes, cidade de Itajaí, estando reunida a diretoria e 24 sócios. Pedi para ver os livros da colônia, e comunicou-me o senhor presidente que possuíam apenas um, o de atas, pois o movimento da Colônia estava parado por falta de orientação. Resolvi, então, apresentar as seguintes propostas, que foram aprovadas: compra de três livros; aumentar as joias para 5 mil réis, em vez de 2 mil réis, como estavam sendo cobradas; e determinar ao capataz da Colônia que fornecesse os nomes de todos os sócios.”

Após a visita do capitão de fragata, ficou acertado que a Colônia de Pescadores de Navegantes seria reorganizada e retomaria seu funcionamento a partir de 1º de julho de 1922. Naquele ano, a colônia possuía 50 sócios inscritos e mantinha uma escola mista que atendia 30 alunos, todos filhos de pescadores.

Colônia de Pescadores de Navegantes foi fundada no dia 28 de janeiro de 1922.

Sem sede própria, a Colônia de Pescadores Lauro Müller Z-25 funcionou, nos primeiros anos, no edifício da Sociedade 1º de Janeiro, localizado na atual Avenida João Sacavém. Em 1924, o

presidente era Manoel Gaya Neto. Um relatório da Marinha apontou que as colônias de Navegantes, Penha, Camboriú, Itajaí e Itapema continuavam totalmente desorganizadas, sendo a Z-18 de Penha havia funcionado apenas um mês após a partida do cruzador auxiliar “José Bonifácio”.

Em 1929, a Colônia de Pescadores Barão de Batovi Z-17, de Itajaí, foi desativada devido ao baixo número de sócios. Apenas 15 pescadores estavam inscritos. Eles foram transferidos para Navegantes. Naquele ano, estabeleceu-se que a Colônia de Pescadores de Navegantes abrangeria a divisa do rio Gravatá, em Penha, até a Praia Brava, em Itajaí, além das duas margens do rio Itajaí até o bairro Machados, em Navegantes.

Em 1932, foi eleita uma nova diretoria: Manoel Nazário, presidente; Lauro Cirino Müller, secretário; e Antônio Santos, tesoureiro. Com o Estado Novo do presidente Getúlio Vargas, os pescadores deixaram de ficar subordinados ao Ministério da Marinha e passaram ao controle do Ministério da Agricultura. O Decreto nº 23.134/33, que instituiu a Divisão de Caça e Pesca, foi uma das mudanças pelas quais o setor pesqueiro passou no período. O objetivo era reforçar o gerenciamento da pesca no país.

A construção da atual sede começou em junho de 1935. O terreno foi doado pelo interventor (governador indicado por Getúlio Vargas) do Estado de Santa Catarina, Aristiliano Ramos, ao prefeito de Itajaí, Arno Bauer. A sede foi inaugurada em 17 de novembro de 1940. A partir desse ano, a Colônia de Pescadores de Navegantes recebeu nova numeração, passando de Z-25 para Z-6.

Em 1986, a sede da Colônia de Pescadores de Navegantes passou por reformas que incluíram a modificação da fachada, troca de piso, telhado e assoalho. Também foi ampliado em 60 metros quadrados para oferecer atendimento odontológico aos pescadores e suas famílias.

Em 1997, a Prefeitura de Navegantes autorizou, por meio de um convênio, que a Colônia construísse 17 salas comerciais para locação. O convênio também autorizava a concessão do atual terminal urbano de Navegantes. Em 2014, o prédio foi tombado como patrimônio histórico do município.


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