O resgate do barco Dom Jerônimo

epois de quatro dias, o Dom Jerônimo foi localizado e levado para Itajaí, onde atracou no trapiche da antiga empresa Sul Atlântico. Crédito: CDMH/Arquivo Público de Itajaí

Na tarde de 14 de julho de 1986, uma segunda-feira fria de inverno, o barco pesqueiro Dom Jerônimo deixou Itajaí em mais uma de suas rotineiras viagens de pesca. O destino era o litoral do Paraná, onde a embarcação buscaria capturar sardinhas. A viagem, considerada curta, tinha retorno previsto para o dia seguinte. Mas o que deveria ser uma pescaria comum transformou-se em um drama em alto-mar.

O Dom Jerônimo zarpou por volta das 15 horas, levando uma tripulação de 14 homens experientes, muitos deles habituados à rotina dura da pesca costeira.

O plano era capturar cerca de 30 toneladas de sardinhas, carga que garantiria uma boa semana de trabalho para a empresa Captura e Comércio de Pescados Gastaldi Ltda., proprietária da embarcação. Como a volta estava marcada para o dia seguinte, o barco recebeu poucos suprimentos (água e comida).

Construído na década de 1970, no estaleiro São Domingos, em Navegantes, o Dom Jerônimo era um barco de madeira e com capacidade para 54 toneladas de pescado. Equipado apenas com um sonar para localizar cardumes e um rádio de comunicação, o barco refletia a tecnologia modesta, porém confiável, que caracterizava a frota pesqueira artesanal de Santa Catarina à época.

A travessia até o litoral paranaense seguiu tranquila até a manhã de terça-feira, 15 de julho de 1986, quando, por volta das 10 horas, o motor da embarcação entrou em pane. O mestre do barco conseguiu, ainda naquele momento, estabelecer contato via rádio com a Superintendência de Desenvolvimento da Pesca (Sudepe), informando que o Dom Jerônimo estava à deriva, a cerca de 30 km a sudoeste de Paranaguá. Apesar da avaria, a tripulação estava bem e aguardava auxílio.

No entanto, o contato se perdeu. Durante toda a quarta-feira, dia 16, o rádio permaneceu em silêncio. Nenhuma nova mensagem foi recebida. A incerteza começou a se espalhar entre os outros pescadores, que reclamaram da falta de informações precisas repassadas pela rádio pesqueira da Sudepe.

Motor entrou em pane e o barco ficou à deriva no litoral do Paraná. Crédito: Reprodução Diário Catarinense

Em Itajaí, os familiares dos trabalhadores entraram em desespero e lotaram o escritório da empresa agenciadora Despamar, buscando notícias. A maior preocupação era a falta de água potável e comida a bordo, já que a viagem não fora planejada para durar tantos dias.

Mesmo tendo sido relatado à deriva desde a manhã de terça-feira, o desaparecimento do barco só foi comunicado oficialmente à Capitania dos Portos de Paranaguá na tarde de quinta-feira, 17 de julho, pela Capitania dos Portos de Itajaí. Essa demora na comunicação atrasou as buscas. No mesmo dia, a Força Aérea Brasileira foi acionada, e uma aeronave de resgate iniciou sobrevoos sobre uma ampla área a sudeste de Paranaguá, mas sem localizar o barco.

O drama das famílias teve fim apenas na sexta-feira, 18 de julho, quando, por volta das 11 horas da manhã, o navio mercante American North Carolina, que navegava próximo à Ilha do Superagui, avistou um pequeno barco de pesca em dificuldades. A tripulação do navio enviou um sinal de alerta, e o avião P-95 Bandeirante Patrulha, do 7º Esquadrão de Patrulha da Base Aérea de Florianópolis, que já sobrevoava a área desde às 8h30, foi imediatamente direcionado ao ponto indicado.

Às 16h39, o Dom Jerônimo foi finalmente localizado. Os 14 tripulantes estavam exaustos, assustados, mas todos vivos. O resgate se estendeu até a madrugada de sábado, em uma operação coordenada pela Base Aérea de Florianópolis, com apoio de outro barco de pesca Macedo IV da mesma empresa, que foi até o local rebocar o Dom Jerônimo.

O Diário Catarinense, em sua edição de 19 de julho de 1986, noticiou em destaque o alívio coletivo e a eficiência da operação.

“O barco Dom Jerônimo foi localizado pelo avião P-95 do 7º Esquadrão de Patrulha da Base Aérea de Florianópolis, entre Paranaguá e Joinville. Segundo o major Sílvio Rockenbach, comandante do esquadrão, tripulado pelo capitão Galvão, tenente Adonil e os sargentos Jordão e Rogério, ao localizar o barco até então desaparecido, obteve-se a informação de que todas as pessoas a bordo estavam bem.”

Demora atrasou as buscas

O mesmo jornal destacou que as buscas foram prejudicadas pela lentidão no repasse de informações às autoridades navais. O comandante Avelini, do Comando Naval de Rio Grande, declarou que só tomou conhecimento do caso na noite de quinta-feira, o que atrasou consideravelmente a mobilização das equipes de resgate:

“A primeira informação indicava que o barco estaria a sudeste da Ilha de Paranaguá. Depois surgiu uma segunda, de que estaria a nordeste. O socorro só pôde ser efetivamente acionado após a localização mais precisa da região, que é muito vasta.”

Festa para receber os pescadores

Em Itajaí, as horas se arrastavam em meio à angústia. Na manhã de sexta-feira, 18 de julho, a empresa Despamar confirmou via rádio que todos os tripulantes estavam a salvo.

A notícia se espalhou rapidamente por Itajaí e Navegantes. Dezenas de familiares e amigos se reuniram no trapiche da empresa Sul Atlântico de Pesca, onde o Dom Jerônimo deveria atracar.

No sábado, dia 19 de julho de 1986, por volta das 13 horas, o barco chegou, rebocado pelo pesqueiro Macedo IV, sob aplausos, lágrimas e gritos de alívio.

As famílias, que haviam passado noites em claro, finalmente puderam abraçar os pescadores. Era o fim de um drama que durou quase cinco dias para acabar e que continua até hoje na lembrança de muitas pessoas, principalmente dos pescadores do Dom Jerônimo.

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