O barco pesqueiro São Nicolau encalhou na praia de Navegantes, em 1968. Crédito: Acervo Adherbal Ramos Cabral (Deba)
Em julho de 1968, o barco pesqueiro São Nicolau encalhou na praia de Navegantes. Rebocadores chegaram a tentar retirá-lo, mas, devido à proximidade com a areia, o esforço foi em vão. O proprietário aguardou que uma maré cheia pudesse ajudar, o que também não aconteceu. Após várias tentativas frustradas, a embarcação acabou sendo desmontada e retirada em partes. Na praia de Navegantes, terminava a trajetória do barco pesqueiro São Nicolau, mas não a sua história.
Seis anos antes, em 1962, o São Nicolau esteve no centro de uma grande polêmica. O barco foi apreendido pela Alfândega de Itajaí com um carregamento milionário de uísque. As caixas da bebida, contrabandeadas do Uruguai, tinham como destino o estado de São Paulo.
No dia 2 de abril daquele ano, o inspetor da Alfândega de Itajaí, José Nogueira de Macedo, recebeu uma denúncia anônima. Em Porto Belo, próximo à estrada do Araçá, um barco de pesca estaria propositalmente encalhado, possivelmente transportando mercadorias ilegais.
Imediatamente, Macedo partiu para o local acompanhado dos agentes fiscais aduaneiros Manoel Santana de Oliveira e Haroldo Schneider, além do marinheiro Evaristo Sebastião Vieira. Lá, confirmaram que a embarcação encalhada era o São Nicolau, de propriedade do empresário Roberto Rodrigues de Oliveira.
A bordo estavam o mestre José Ricardo Sacavém e mais três tripulantes. Durante a vistoria, foram encontradas 158 caixas de uísque. O mestre recebeu ordem de prisão, enquanto a mercadoria foi transferida para a Alfândega de Itajaí. Em depoimento inicial, Sacavém afirmou que a carga havia sido comprada em Nueva Palmira, no Uruguai, e tinha como destino São Paulo.
Caminhão transportava 247 caixas de uísque
Quando a equipe da Alfândega chegou à estrada do Araçá, parte do contrabando já havia sido transferida para dois caminhões. Um conseguiu escapar, mas o outro, com problemas mecânicos, estava parado em uma oficina na rua Avelino Werner, próxima à antiga rodoviária de Itajaí, hoje sede da Prefeitura.

No local, o inspetor José Nogueira de Macedo, os agentes fiscais Pedro Karts e João Santana Júnior, o delegado regional de Polícia Luiz Guimarães Dias e o comissário do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), Hebert Ruck, localizaram o caminhão, de propriedade de Hélio Pereira Tavares, com licença provisória de São Paulo. No interior, encontraram 247 caixas de uísque, que também foram levadas para a Alfândega, onde foi instaurado inquérito.
O segundo caminhão não foi interceptado, apesar das blitzes realizadas em Itajaí, Navegantes e cidades vizinhas. Segundo a investigação da época, ele transportava cerca de 300 caixas da bebida.
No total, o carregamento apreendido somava 458 caixas de uísque, avaliadas em doze milhões de cruzeiros. As marcas identificadas eram Ambassador e Long John. Concluído o inquérito, as mercadorias foram enviadas a leilão, conforme determinava a legislação vigente.
Mestre e motorista alegaram inocência
Em depoimento ao delegado regional Luiz Guimarães Dias e ao escrivão Waldemar Ern, o mestre José Ricardo Sacavém declarou que viajou ao Uruguai acompanhado do proprietário do barco, Roberto Rodrigues de Oliveira, e mais nove pescadores, para adquirir o uísque.
Segundo ele, o carregamento foi feito por estivadores em Nueva Palmira, Uruguai, e deveria ser desembarcado em Porto Belo, onde dois caminhões aguardavam para seguir viagem até São Paulo. Uma baleeira motorizada levou parte da carga do São Nicolau até a estrada do Araçá.
Sacavém afirmou ainda que o dono do barco dispensou a maior parte da tripulação para visitar familiares em Itajaí e Navegantes, deixando apenas quatro homens a bordo. Em sua defesa, alegou inocência, argumentou que apenas cumpria ordens do proprietário da embarcação.
A versão do motorista do caminhão Ford, chapa 20-50-53 de São Paulo, apreendido pela Alfândega de Itajaí, foi publicada pelo jornal A Nação, em 5 de abril de 1962. Acreditando falar com um policial, Hélio Rodrigues Castelo Branco declarou ao repórter do jornal, Nilton Russi, que não sabia da carga ilícita. Segundo ele, era funcionário da Transportadora Leblon, no Rio de Janeiro, e estava a serviço do engenheiro Djalma Sapucaia, transportando bolachas.
“Estou completamente inocente, pois resido no Rio de Janeiro, onde sou funcionário da firma comercial Transportadora Leblon e aqui estou a serviço do engenheiro Djalma Sapucaia.”
Entretanto, o escrivão Waldemar Ern contestou a versão do motorista. Com Castelo Branco foram encontrados recibos e telegramas emitidos no Uruguai, que comprovavam seu envolvimento direto no contrabando. Além disso, ele portava 40 mil cruzeiros, duas armas de fogo, placas frias e diversos documentos falsos de identidade, incluindo uma carteira de jornalista profissional.
Durante as investigações, a polícia descobriu que o barco pesqueiro São Nicolau havia sido, originalmente, um iate pertencente a Giovani Batista Cervato, morador de Santos (SP). Ele vendeu a embarcação ao empresário Roberto Rodrigues de Oliveira, que a adaptou para a pesca.
O valor da negociação foi de 11 milhões de cruzeiros, com entrada de cinco milhões e o restante parcelado em prestações de 200 mil cruzeiros. No momento da apreensão, o barco ainda estava registrado em nome do antigo proprietário. Um advogado de Itajaí, contratado por Oliveira, tentou liberar a carga de uísque junto à Alfândega, mas somente o barco foi liberado.
Quanto ao encalhe do São Nicolau em Navegantes, em 1968, não há registros de que a embarcação transportava algo ilícito. Tudo indica que, dessa vez, o acidente não foi proposital.
