O morador de Navegantes que construiu uma ferrovia sozinho

Ferrovia feita toda de madeira foi montada na década de 1930 em Navegantes por uma única pessoa. Crédito: Imagem gerada por inteligência artificial (ChatGPT)

POR ROGÉRIO PINHEIRO

A coluna “Outros Quinhentos” conta esta incrível história na semana do aniversário de emancipação de Navegantes.

Imagine construir uma ferrovia inteiramente feita de madeira. Imagine também fabricar vagões com o mesmo material e fazer tudo isso funcionar como uma ferrovia de verdade. Um morador de Navegantes não apenas imaginou, como construiu a sua própria estrada de ferro usando somente madeira. Para tornar a história ainda mais surpreendente, ele realizou essa façanha na década de 1930.

Com menos de cinco mil habitantes, Navegantes, nos anos 30, não passava de um bairro de Itajaí, dividido em várias localidades como Machados, Escalvados, Pontal, Queimadas (Pedreiras), Porto Escalvados, Saco Grande (São Domingos) e Gravatá. A economia local se baseava na pesca e na agricultura. As culturas mais comuns eram a cana-de-açúcar, o café, a banana e o milho.

Naquele tempo, o Brasil atravessava profundas transformações políticas e sociais. Getúlio Vargas havia assumido o poder em 1930, a economia ainda sentia os reflexos da Grande Depressão, e as ferrovias, símbolo do progresso, eram controladas por poucas empresas ligadas ao café e à exportação. Em regiões afastadas, como Navegantes, o transporte dependia de embarcações, carroças ou raros automóveis.

Primeira ferrovia

Em Navegantes, uma ferrovia foi construída em 1908 para o transporte de pedras destinadas à construção do molhe Norte e para as obras de recuperação do Porto de Itajaí, destruído pela grande enchente de 1880. A ferrovia foi implantada pela Cobrasil, também responsável pela construção do molhe de Navegantes. Ela ligava Queimadas ao Pontal e contava com uma locomotiva e nove vagões.

Além da pesca e da agricultura, a extração de madeira era outra importante fonte de renda para os moradores de Navegantes. A madeira fornecia lenha para fogões domésticos, utilizada tanto no preparo dos alimentos quanto para aquecer as casas nos dias frios. Também era empregada na construção de moradias, como combustível para embarcações e até mesmo para locomotivas. Nas olarias, a lenha alimentava os fornos para a fabricação de telhas e tijolos de barro.

Na localidade de Queimadas, hoje bairro Pedreiras, o lavrador Antônio Serafim também extraía madeira para venda de lenha em Itajaí e Navegantes. O transporte era feito de carroça até a margem do rio Itajaí-Açu, no bairro Machados. De lá, a madeira seguia de barco até o centro de Itajaí, onde era comercializada.

Sem uma estrada ligando Queimadas a Machados, Antônio usava trilhas e picadas para chegar ao destino. O trajeto era demorado e ficava ainda mais difícil nos dias de chuva, quando a carroça atolava na lama.

Ao ver a pequena ferrovia recém-construída para transportar pedras, que chegava a 300 toneladas até o Pontal, Antônio teve uma ideia. Por que não construir uma ferrovia para transportar a madeira até o rio? Além de lavrador, ele tinha noções de carpintaria. Começou a estudar a ferrovia e a usá-la como modelo para a sua própria construção.

O Projeto

Sem ferro disponível, precisou recorrer ao material que tinha à disposição, a madeira. Depois de analisar o funcionamento da ferrovia da Cobrasil, iniciou seu projeto. Primeiro, construiu os trilhos com sarrafos de madeira ligando Queimadas à margem do rio Itajaí-Açu, no bairro Machados.

Até os vagões que transportavam lenhas eram feitos de madeira Crédito: Imagem gerada por inteligência artificial (ChatGPT)

Em seguida, fabricou também os vagões, igualmente de madeira. Não se sabe ao certo se Antônio Serafim chegou a construir uma locomotiva, já que os vestígios encontrados de sua ferrovia limitam-se aos trilhos e aos vagões de madeira.

A ferrovia de madeira só foi descoberta em 1933, quando teve início a construção da estrada que ligaria os bairros de Pedreiras e Machados. Durante os trabalhos, ao entrarem na mata, os funcionários da empresa responsável pela obra localizaram os trilhos e os vagões. A novidade ganhou destaque no jornal “O Pharol”, edição de 29 de abril de 1933.

“Entre Queimadas e Machados está sendo aberto o traçado para a construção de uma estrada de rodagem que comunicará aquelas comunidades. Pessoas empregadas nesse serviço relataram a surpresa que tiveram ao encontrar, em plena mata, uma estrada de ferro construída inteiramente em madeira. Trilhos de sarrafos, vagões de madeira, de fabricação tosca, porém funcionando com perfeição.”

Na mesma edição, o jornal de Itajaí registrou que os funcionários da empreiteira, após conversarem com moradores de Queimadas, conseguiram identificar o responsável pela curiosa obra de engenharia.

O morador de Navegantes usou sarrafos para fazer os trilhos.  Crédito: Imagem gerada por inteligência artificial (ChatGPT)

“A estrada descoberta provocou curiosidade entre todos os companheiros, que buscaram explicações sobre a razão de sua construção. Souberam, então, que ela havia sido feita pelo lavrador Antônio Serafim, para transportar lenha desde a mata até a margem do rio, cumprindo perfeitamente, durante vários meses, os objetivos pretendidos por seu construtor.”

Pouco se sabe sobre a vida de Antônio Serafim. Os registros indicam que ele era lavrador, possuía terras em Navegantes, criava cavalos de corrida e participava ativamente de um jóquei clube em Itajaí.

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