Por Edson Passold – Advogado.
Não faz muito tempo que o ecossistema do trânsito urbano, embora já complexo e hostil, era composto por figuras bem conhecidas: o automóvel, a motocicleta, a bicicleta e o pedestre. Sabíamos onde cada um deveria estar, ainda que o respeito mútuo nem sempre fosse a regra.
No entanto, o cenário mudou drasticamente. A chegada dos veículos autopropelidos, ciclomotores e pequenos eletrificados prometia uma revolução na mobilidade sustentável, mas o que vemos hoje é uma “dor de cabeça” de proporções nacionais. No papel, a ideia é brilhante.
Veículos leves, movidos a energia limpa e ocupando pouco espaço são o sonho de qualquer urbanista para desafogar as artérias saturadas da maioria das cidades. Contudo, a realidade das nossas ruas não acompanhou a velocidade dos motores elétricos. Sem vias adequadas e segregadas para essa nova fauna urbana, o que impera é a improvisação.
Um dos pontos mais sensíveis dessa crise é comportamental. Existe uma crença perigosa
entre muitos condutores desses novos veículos de que o motor elétrico os isenta das leis de
trânsito. Avançar sinais vermelhos, trafegar na contramão e ignorar a prioridade do pedestre
tornaram-se práticas rotineiras.
Essa sensação de “terra sem lei” é o combustível para acidentes que variam da leve escoriação à ravidade fatal. Quando a tecnologia avança mais rápido que a educação, o progresso cobra o seu preço em segurança. O que poderia ser uma solução boa e barata para o trânsito nosso de cada dia tornou-se um desafio de convivência que a legislação, sozinha, não consegue resolver.
É utópico acreditar que a proibição seja o caminho. Os eletrificados vieram para ficar; são práticos, econômicos e necessários para a transição energética. Também é ilusório depositar todas as esperanças no regramento e na fiscalização rigorosa. Com a diversidade e a capilaridade desses veículos, o Estado jamais terá pernas para monitorar cada esquina.
A verdade incômoda é que teremos de conviver com essa configuração cada vez mais caótica. E a única saída viável não está nos códigos de trânsito, mas na consciência individual. Enquanto o usuário — seja ele do SUV de luxo ou do patinete alugado — não entender que o seu modo de dirigir coloca vidas em risco permanente, inclusive a própria, o asfalto continuará sendo um campo de batalha.
O trânsito do futuro exige mais do que baterias potentes; exige o resgate de um conceito antigo e, por vezes, esquecido: a alteridade. Sem ela, continuaremos acelerando silenciosamente em direção ao caos.
