O verão em que os fuzileiros navais desembarcaram para a guerra em Navegantes

Milhares de fuzileiros navais invadiram o município para um combate simulado. Crédito: Reprodução Jornal Gazeta de Navegantes

Operação Dragão XXIV da Marinha do Brasil mobilizou o município em 1987

Mais de dez navios, entre eles o porta-aviões Minas Gerais, helicópteros, tanques, canhões de 155 mm e milhares de fuzileiros navais “invadiram” Navegantes em dezembro de 1987. Eles realizaram uma complexa manobra militar que envolveu ações simultâneas no mar, em terra e no ar. Não se tratava de uma guerra, e sim da Operação Dragão XXIV, que a coluna “Outros quinhentos” conta nesta edição.

O amanhecer daquele verão foi interrompido por um espetáculo incomum no litoral catarinense. Em poucas horas, a rotina tranquila de Navegantes deu lugar a uma cena que lembrava um teatro de guerra: milhares de fuzileiros navais ocuparam praias, ruas e áreas estratégicas da cidade, enquanto o céu era cortado pelo ruído ensurdecedor de aeronaves e helicópteros.

O mar, por sua vez, transformou-se em um tabuleiro naval, com a presença de navios de guerra e até um porta-aviões, que operava como quartel-general.

Porta-aviões Minas Gerais foi o grande destaque do poderio militar da Marinha durante a Operação Dragão em Navegantes. Crédito: Rob Schleiffert

Não era uma guerra de verdade e sim a Operação Dragão XXIV, um dos maiores exercícios militares conjuntos já realizados na região Sul do país, envolvendo a Marinha do Brasil. A ação mobilizou milhares de homens e uma vasta quantidade de meios terrestres, navais e aéreos, com o objetivo de treinar novos soldados e testar a capacidade de defesa do território nacional em um cenário de conflito simulado.

Durante vários dias, moradores de Navegantes acompanharam, entre curiosidade e espanto, o deslocamento de tropas armadas com fuzis municiados com festim, explosões simuladas, desembarques anfíbios e operações militares. Aviões de transporte da sobrevoavam a cidade em baixa altitude, enquanto helicópteros davam suporte às tropas em solo.

No litoral, navios da esquadra garantiam o bloqueio marítimo e o apoio logístico, tendo como centro de comando um porta-aviões, o Minas Gerais, símbolo do poder naval brasileiro na época. O porta-aviões deixou a frota da Marinha em 2001.

Em 1974, Operação Dragão também aconteceu no litoral catarinense, em Barra Velha e Piçarras. Crédito: Arquivo Marinha do Brasil

A Operação Dragão foi estruturada em três forças fictícias. A Tropa Azul, concentrada no sul da cidade, simulava uma força invasora. A Tropa Amarela, com base na região central, tinha a missão de defender o território e repelir o avanço inimigo.

Já a Tropa Vermelha, posicionada na região sudeste do município, atuava como força de apoio estratégico à defesa. Em localidades próximas, como Escalvados, a presença de tanques de guerra e veículos blindados chamou a atenção dos moradores, principalmente das crianças.

Operação Dragão

A Operação Dragão é um exercício que permite aos militares vivenciar uma situação simulada de guerra iminente. O objetivo é colocar em terra toda uma força militar, com grande ação de choque e poder de fogo, visando à conquista de posições capazes de assegurar o domínio da “cabeça de praia” (área escolhida para a penetração das forças de desembarque) até a chegada de reforços.

Operação Dragão transformou Navegantes em cenário de guerra em 1987  Crédito: Arquivo Marinha do Brasil

O treinamento em Navegantes envolveu forças navais, aeronavais e de fuzileiros navais. As tropas da Força de Fuzileiros da Esquadra eram constituídas por dois Grupamentos de Desembarque de Batalhão, nucleados pelo Batalhão de Infantaria da Divisão Anfíbia e reforçados por elementos de engenharia, artilharia, paraquedismo, homens-rãs, viaturas M-113 e “Urutu”, além de carros de combate “Cascavel”. As unidades efetuaram o desembarque em praia “hostil” para conquistar a cabeça de praia e permitir o desembarque de tropas e material, sem oposição do inimigo.

O desembarque foi precedido por um bombardeio simulado a partir dos navios, com apoio de fogo, também simulado, das unidades aéreas. Em seguida, as forças de desembarque realizaram o assalto, estabelecendo a cabeça de praia e cessando totalmente a resistência inimiga.

Em Navegantes, os caminhões Urutu, anfíbios blindados, fabricados inteiramente no Brasil, desembarcaram diretamente na praia. Funcionavam a motor diesel, alcançando em terra velocidade máxima de 90 km/h e, no mar, cerca de 10 km/h. Sua missão era transportar pessoal (com capacidade para 14 pessoas) e carga diretamente do navio para a terra, tendo como principal função terrestre o apoio mútuo de combate junto à Infantaria.

Assim que souberam do treinamento militar, crianças do bairro Escalvados correram para ver a novidade. Crédito: Reprodução Jornal A Gazeta de Navegantes

Em 1987, o GPS ainda não era um equipamento disponível. Assim, as posições geográficas eram transmitidas via rádio, de forma codificada, ao comandante do helicóptero UH-14, a bordo do porta-aviões Minas Gerais.

A Capitania dos Portos de Itajaí serviu como “base de controle terrestre” para os jogos de guerra, além de alojamento para cerca de 500 fuzileiros navais vindos da cidade gaúcha de Rio Grande.

Desde o seu início, em 1964, a Operação Dragão foi marcada por inovações. Um exemplo foi o emprego, na edição de 1986, de 12 CLANFs (Carros Lagarta Anfíbios), recém-adquiridos para os Fuzileiros Navais e utilizados pela primeira vez em 1987, em Navegantes. No mesmo ano, um helicóptero UH-14 também foi empregado em missão de resgate.

A Operação Dragão XXIV foi a segunda realizada no litoral catarinense. A primeira ocorreu em 1974, em Barra Velha e Piçarras. A última Operação Dragão aconteceu no litoral do Espírito Santo em 2021.

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