A cidade do bicho de pé

A infestação do bicho de pé é comum em locais com terrenos arenosos e secos.

COLUNA: Outros Quinhentos, por Rogério Pinheiro

Bicho de pé. Quem nasceu ou mora em Navegantes há mais de trinta anos sabe muito bem o que a expressão popular significa. Durante muito tempo, essa pequena pulga, transmitida por animais domésticos, infernizou a vida dos moradores. Era preciso usar sapatos fechados e meias mesmo no calor, e, às vezes, nem isso bastava, já que o inseto se alojava também nas mãos. 

Em setembro de 1986, o município enfrentou um surto da doença provocada por esse parasita, que ganhou as páginas da imprensa catarinense e rendeu à cidade o nada honroso título de “A cidade do bicho de pé”.

O caso ganhou repercussão estadual após a morte de uma criança no hospital Marieta Konder Bornhausen, em Itajaí, vítima de tétano decorrente da infecção. O jornal Diário Catarinense, na edição de 21 de setembro de 1986, destacou o surto em reportagem de capa.

“Uma criança já faleceu e outra passa mal no CTI (Centro de Tratamento Intensivo) do hospital Marieta Konder Bornhausen com tétano devido a um surto de bicho de pé que atingiu o município. As crianças da comunidade estão cheias de feridas causadas pela inflamação que o bicho provoca.

Uma equipe do Centro de Saúde de Itajaí vacinou as crianças contra o tétano, mas não conseguiu imunizar toda a população. A Secretaria de Saúde não possui sequer um levantamento do número de ocorrências. Nos últimos três anos, mais de dez crianças e alguns adultos morreram de tétano provocado pelo bicho de pé.”

A matéria explicava que a proliferação da pulga era favorecida pela falta de higiene e pelas condições ambientais das áreas litorâneas. Recomendava-se que os pais examinassem diariamente os pés e as mãos dos filhos. A retirada do inseto, que se reproduz rapidamente, podia ser feita com uma agulha desinfetada em álcool. Quando não removido, o parasita causava inflamações, feridas, ínguas, febre alta e, nos casos mais graves, convulsões e morte por asfixia, devido à contração muscular provocada pelo tétano.

O jornal também relatou o drama de uma menina de 11 anos, internada no CTI do Hospital Marieta. Vítima de tétano causado pelo bicho de pé, ela precisou ser submetida a uma cirurgia na garganta para conseguir respirar.

Condições precárias

A reportagem descreveu o ambiente em que a menina vivia como precário. Em uma área arenosa e seca, com muitos cães de rua, cenário perfeito para a disseminação da pulga. O texto também narrava a situação de quatro irmãos que moravam em condições subumanas em um barraco à beira do rio Itajaí-Açu, no bairro São Pedro, o Pontal. Tratava-se de uma área de marinha invadida, onde o esgoto de centenas de famílias escorria diretamente para o rio.

O bicho de pé é uma pequena pulga que penetra na pele, especialmente nos dedos dos pés. Crédito: Brigham Young University

Um policial militar residente próximo ao local lamentou a falta de ação do poder público diante do surto.

“A gente fica neste sofrimento porque ninguém toma qualquer providência para acabar com o problema.”

Moradores do Pontal pediram que a Secretaria de Saúde enviasse uma equipe para realizar um levantamento dos casos e adotar medidas emergenciais. Além do temor pela saúde das crianças, havia preocupação com a imagem da cidade. O turismo, junto com a pesca, era uma das principais fontes de renda da população, e o surto poderia afastar visitantes na temporada de verão.

A mesma preocupação foi expressa pelo jornal Gazeta de Navegantes, que criticou as autoridades locais pelo silêncio diante da situação. Em editorial publicado em outubro de 1986, o periódico reagiu à repercussão negativa na imprensa estadual.

“Fomos surpreendidos pela imprensa acusando Navegantes de surto de bicho de pé e não vimos nenhuma autoridade levantar a voz em defesa da cidade, para desmentir acusações infundadas que afastam o turista e fazem do nosso povo alvo de chacota e zombaria. Todos sabem que o problema é comum em quase todas as cidades catarinenses.”

Vacinação em massa

Diante da gravidade do surto, o governo de Santa Catarina lançou uma campanha estadual de vacinação contra o tétano em todas as escolas. Uma comissão foi criada para tratar das infecções causadas pelo inseto, com ações educativas em escolas, postos de saúde e junto à comunidade do Pontal.

Em Navegantes, porém, a adesão à campanha foi baixa: das 300 crianças que deveriam ser imunizadas, 200 não receberam a dose, seja por resistência dos pais ou pelo medo das próprias crianças.

O bicho de pé (Tunga Penetrans) é uma pequena pulga que, ao penetrar na pele, especialmente nos dedos dos pés, cresce e forma um cisto onde deposita seus ovos. Esses ovos caem no ambiente e originam novas pulgas. A infestação, chamada tungíase, é comum em locais com terrenos arenosos e secos. Cães e gatos são os principais hospedeiros da pulga.

Na edição de 23 de setembro de 1986, o Diário Catarinense publicou uma nota do 7º Centro Administrativo Regional de Saúde (Cars). A nota afirmava que, naquele ano, não houve registro de nenhuma morte por tétano nos municípios da região, incluindo Navegantes e Itajaí.

Apenas um caso suspeito havia sido identificado, o de um homem de 70 anos, morador de Itajaí. O Cars classificou como “exploração política” as notícias que mencionavam crianças morrendo em decorrência do bicho de pé, lembrando que o Centro Administrativo Regional de Saúde era comunicado sobre qualquer ocorrência da doença.

Apesar das campanhas de prevenção e do alarde provocado pelo surto, o problema não desapareceu de imediato. Por muitos anos, o bicho de pé continuou a atormentar os moradores de Navegantes, e até hoje permanece viva a memória de quem testemunhou aquele período em que a cidade ganhou o apelido de “A cidade do bicho de pé.”

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