
ACADEMIA DE LETRAS DO BRASIL DE SANTA CATARINA – SECCIONAL NAVEGANTES
Acadêmica: Ilva Maila dos Santos Gaya, cadeira 15, jornalista, pós-graduada em Gestão Pública e especialista em Gestão de Marketing e Marketing Digital.
Toda cidade possui duas versões. Existe a que vemos todos os dias, com suas ruas, construções e o movimento constante de pessoas. E existe aquela que mora na memória de quem acompanhou sua transformação ao longo dos anos.
Essa segunda cidade não aparece nos mapas nem nas fotografias mais recentes. Ela surge nas conversas de fim de tarde, nas histórias contadas pelos mais velhos e nas lembranças que insistem em permanecer vivas.
É a cidade das brincadeiras na rua até o anoitecer, dos vizinhos que deixavam as portas abertas, dos caminhos percorridos a pé e dos lugares que já não existem, mas que continuam ocupando um espaço especial na memória de muita gente. É também a cidade que um dia atravessava o rio de lanchinha e que, agora, se prepara para viver uma nova travessia com a chegada do túnel submerso.
Com o passar do tempo, as cidades crescem, se modernizam e ganham novas formas. Isso faz parte da sua própria história. Mas, junto com as mudanças, algumas paisagens também se transformam. Um terreno vazio vira construção. Uma casa antiga ganha outro uso. Um comércio tradicional fecha as portas. O campinho de futebol vira um prédio. E, aos poucos, a cidade que conhecíamos passa a existir apenas nas lembranças.
Talvez por isso as histórias sejam tão importantes. Elas preservam aquilo que o tempo não consegue guardar sozinho. Cada relato, cada fotografia antiga e cada recordação compartilhada ajudam a manter viva uma parte da identidade de um lugar.
No fim, a cidade não é feita apenas de ruas e edifícios. Ela também é construída pelas pessoas, pelas experiências e pelas memórias que cada geração deixa para a próxima.
A memória da cidade deve ser tratada como patrimônio, e não como comparação. Cada fase vivida deixa marcas, não apenas nas ruas e nos espaços, mas também na lembrança de quem acompanhou as mudanças e ajudou, de alguma forma, a construir a história do lugar.
E enquanto houver alguém para contar essas histórias, aquela cidade que já não existe continuará encontrando um jeito de permanecer.
