No dia 26 de agosto de 1962, Navegantes conquistou sua emancipação político-administrativa de Itajaí após um processo longo e desgastante, que mobilizou intensamente os moradores do então bairro itajaiense. Os moradores alegavam abandono por parte da administração municipal. O mesmo motivo seria utilizado, poucos anos depois, por outro bairro de Itajaí que também tentou se emancipar e se transformar em município.
A coluna “Outros quinhentos” conta a história do movimento de emancipação do bairro Cordeiros, que, ao contrário de Navegantes, encontrou forte resistência na Câmara de Vereadores de Itajaí.
O movimento de emancipação de bairros e distritos de Itajaí é antigo e remonta ainda ao século XIX. O primeiro a se separar foi Camboriú, em 1884. Já no século XX, outros quatro distritos, incluindo Navegantes, alcançaram a emancipação. Em 1958, Penha, Ilhota e Luiz Alves se desligaram de Itajaí e se transformaram em municípios. Segundo o historiador Edison d’Ávila, esse movimento separatista esteve diretamente ligado às disputas políticas entre a União Democrática Nacional (UDN) e o Partido Social Democrático (PSD). Cada legenda buscava se fortalecer eleitoralmente em diferentes regiões do município, e os então distritos de Itajaí acabaram sendo emancipados em sequência, todos no mesmo ano.

A mesma estratégia de enfraquecimento partidário se repetiu em 1962, quando Navegantes se emancipou de Itajaí. Com a separação, a UDN, que possuía forte base eleitoral em Navegantes, diminuiu o eleitorado em Itajaí. Isso fez com que o PSD se fortalecesse. Embalado pelo sucesso de Navegantes, o bairro Cordeiros também organizou um movimento separatista em 1965. Na época, Cordeiros ainda integrava a zona rural de Itajaí, e seus moradores reclamavam, com razão, do descaso da Prefeitura.
Cordeiros
O jornal A Nação noticiou o movimento em sua edição de 11 de agosto de 1965 e destacou a importância econômica do bairro para o município, que concentrava algumas das principais empresas de Itajaí.
“Comissão de moradores da localidade de Cordeiros está percorrendo todos os bairros, com o fito de realizar campanha que visa emancipar aquele território municipal, considerado o triângulo de ouro de Itajaí, em face da considerável soma que recolhe aos cofres municipais e estaduais. Ali situam-se as companhias de gasolina e gás, a fábrica de cimento Portland, depósito de fumo Souza Cruz e tantas outras pequenas indústrias e casas comerciais que representam metade da arrecadação municipal. O abandono a que estão relegados aqueles moradores determinou o início do movimento.”
Em 1965, Cordeiros vivia um crescimento acelerado, impulsionado pela instalação de inúmeras madeireiras, do depósito de exportação de fumo da Souza Cruz e, principalmente, dos terminais de petróleo (Texaco, Esso, Ipiranga, Shell e Atlantic) e de gás (Liquigás e Heliogás). O bairro respondia por mais da metade da economia de Itajaí.
Para que o projeto de emancipação fosse aprovado na Câmara de Vereadores de Itajaí, seriam necessários nove votos dos 13 vereadores que compunham o Legislativo. O mesmo jornal A Nação consultou os parlamentares e confirmou que a proposta não seria aceita, pois, o entendimento majoritário era o de manter a integridade territorial do município, sem desmembramentos. Apesar de mencionar que um vereador demonstrava interesse na emancipação, o jornal não revelou seu nome. Esse parlamentar, segundo a reportagem, teria interesse em se candidatar a prefeito do eventual município de Cordeiros.

Câmara de Vereadores de Itajaí
Em 1965, a Câmara de Vereadores de Itajaí era composta por 13 vereadores: seis do PSD, quatro da UDN e três do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Integravam a bancada do PSD os vereadores Acyr da Silva, Bento Guilherme Pereira, Heluiz Antônio Moraes Gonzaga, José Palmeira Netto, Milton Ribeiro da Luz e José Rodrigues de Araújo, este último presidente do Legislativo naquele ano.
A UDN era representada por Dalmo Vieira (fundador do jornal Diário do Litoral, o Diarinho), Hélio Mário Guerreiro, José Luiz Colares e Odemar Costa. Já o PTB tinha como vereadores Félix Fóes (filho do proprietário do Jornal do Povo), Ayrton de Souza e Sabino Anastásio Paulo.
Além da Câmara de Vereadores de Itajaí, para que a criação do município de Cordeiros tivesse validade legal, o projeto também precisaria da aprovação da Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) e, posteriormente, da sanção do governador do Estado, que na época era Celso Ramos (PSD). O jornal A Nação, em sua edição de 10 de agosto de 1965, já informava que a Alesc não pretendia votar a proposta.
“Não condenamos a atitude de alguns moradores da localidade de Cordeiros em pleitearem a sua emancipação política. O que achamos simplesmente irrisório é a promessa dos mesmos, a um certo vereador da Câmara Municipal, de ser referido edil o candidato a prefeito, caso consiga a aprovação da lei que depende de dois terços dos vereadores existentes na aludida Câmara, quando este, pelo que se observa nos bastidores da mesma para o caso em apreço, conta apenas com o seu voto.
Se isso não bastasse para elucidar o caso, temos ainda o ofício circular da Assembleia Legislativa do Estado, cientificando as câmaras municipais de que não dará encaminhamento a nenhum processo de criação de novos municípios enquanto não for deliberado pelo Congresso Nacional estas questões que se acham, ainda, em estudo.
A respeito do caso de Cordeiros, no máximo a Câmara Municipal de Itajaí poderia aprovar uma lei estendendo o perímetro urbano até a localidade de Salseiros.”
Apesar do esforço dos moradores, Cordeiros não conseguiu repetir o feito de Navegantes e permanece até hoje como bairro de Itajaí.
