A Voz do Carnaval

Academia de Letras do Brasil de Santa Catarina – Seccional Navegantes (ALBSC)

Texto: Acadêmica Ana Cristina Cabral, cadeira número 11

De acordo com o Código Penal de 1890, cortejos de rua, celebrações e religiosidades foram consideradas ilegais, indo além da capital para as demais regiões, onde tais práticas eram ainda mais tradicionais. O objetivo era civilizatório. Sob este cenário, o Entrudo, trazido ao Brasil pelos portugueses, tomou proporções populares nas ruas do Rio de Janeiro, devido à diversão sugerida pela prática. Não demorou muito tempo para a tradição ser vista como profana e agressiva. À moda veneziana, as comemorações foram substituídas por festas de elite, ora em espaços privados, como salões, ora públicos, dando início aos desfiles de corsos. Oficializa-se o Carnaval, separado das festas de ruas (que entraram na ilegalidade) e privatizado, forma de segregar a população em sua maioria, preferindo atender aos gostos europeus da elite branca.

Entretanto, esse movimento não se deu sem resistência. Grupos populares, longe de desaparecerem, souberam se reinventar e ressignificar suas práticas culturais. Um exemplo emblemático é o surgimento das escolas de samba, que transformaram os espaços de exclusão em lugares de criação cultural. Ao se organizarem em torno do samba, as populações marginalizadas se afirmaram, e também contribuíram para consolidar uma identidade cultural brasileira plural.

O Carnaval, ao chegar nas mãos do povo, foi o porta-voz daqueles que eram silenciados, o momento de expressão cultural livre. O que precisava ser denunciado e alarmado, era feito dentro das rodas de samba e de capoeira, além de danças originais inspiradas nos ritmos africanos.

A violência contra o povo foi respondida não só com luta, mas também com beleza e arte. Os bailes girantes, saias coloridas, lenços e turbantes, até os contemporâneos trios elétricos e desfiles, carregam a voz popular brasileira, transformam denúncia em festa, a injustiça em narração, a dor em arte. Não um espetáculo qualquer, mas o território conquistado pelos excluídos, onde a ancestralidade é celebrada e o canto calado se fez ouvido.

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