
Academia de Letras do Brasil de Santa Catarina – Seccional Navegantes
Acadêmica: Jornalista Louise Benassi, cadeira n. 13
Se minha vó materna estivesse viva, teria completado 94 anos no último dia 9. Ela chamava-se Valmir dos Santos Benassi. A confusão já começava no nome; afinal, o nome “Valmir” é mais frequentemente usado para homens, mas uma de suas irmãs já havia sido batizada de Valmira. Então, a caçula da família Santos virou “Mimi”.

E não era só nisso que havia confusão. Tijucana brava, deixava muitas pessoas de olhos arregalados, inclusive o meu pai, que vinha de Itajaí para Navegantes cortejar minha mãe e era recepcionado pela mãe-onça que protegia a sua cria. Entretanto, o que muitos não sabiam é que, por trás daquelas garras de felino, havia um coração gigante.
Era a mulher que acordava de madrugada para orar pela família, que buscava os netos na escola e fazia questão de carregar a mochila de cada um. A matriarca que cuidava de todos (principalmente com Melagrião), inclusive de quem não era da família. No seu velório, eram muitos os desconhecidos que apareceram para dar o último adeus, dizendo: “A dona Mimi muito me ajudou”.
A dona Mimi também tinha características muito peculiares. Era fã do Silvio Santos, do Zezé de Camargo e do Supla! Yes, papito. Assava carne na churrasqueira e quase nos matava do coração ao jogar álcool depois que o fogo já estava aceso. Usava uma escadinha de madeira para pular o muro da sua casa para a das filhas, ao invés de usar o portão.
Era ainda muito teimosa. Recuperando-se de uma trombose, não tinha Cristo que a fizesse ficar de repouso. Foi criada com o trabalho duro, e para ela era malandragem ficar na cama. Ela abatia galinha e recolhia ovos de seu galinheiro, fazia suco com as acerolas plantadas em seu quintal.
Não confiava no serviço de terceiros; preferia ela mesma fazer. E, trabalhando, foi assim que ela nos deixou. Partiu instantaneamente, sem dor, como ela merecia.
Mas quantas saudades ela nos deixou. Lembranças tão boas da infância, com cheiro de bolinho de chuva e de acerola, ao som de “É o amor”.
