Os temporais que hoje nos obrigam a fechar janelas e desligar aparelhos já foram, no passado, motivo de pânico generalizado em Navegantes. Situada em uma planície com muitas árvores e sem para-raios, parte da cidade era muito mais vulnerável do que atualmente. A coluna “Outros quinhentos” lembra alguns episódios dessa triste relação da cidade com os raios e curiosidades, como a prática de enterrar uma pessoa após ela receber uma descarga elétrica.
Um desses episódios ocorreu em 23 de setembro de 1956. Naquele fim de mês, uma violenta tempestade marcou a transição do inverno para a primavera. Raios atingiram diversas partes da cidade, e dois pescadores morreram. O jornal do Povo, de 30 de setembro, noticiou a tragédia.
“A passagem do inverno para a estação da primavera foi feita sob grande protesto da natureza. Além das chuvas copiosas que caíram por mais de uma semana, forte vento soprou, causando no oeste catarinense, segundo fomos informados, grandes estragos. Além disso, chuvas de granizo prejudicaram plantações, causando, nas redondezas de Florianópolis, prejuízos em moradias humildes. Caíram pedras que pesaram cerca de 300 gramas.
Por aqui, as coisas também não andaram bem. No domingo último, por exemplo, depois de um intenso calor, o céu se cobriu de escuro, vindo em seguida uma tremenda descarga elétrica. A trovoada sobre a cidade não deixou de causar justificada apreensão. Verdadeira fuzilaria de faíscas por todos os lados, acompanhadas de vento e chuva. Via-se que alguma tragédia iria acontecer.
E, como de fato, vários raios caíram na cidade. Um atingiu pés de eucaliptos perto da residência do senhor Fritz Schneider, quase impossibilitando o trânsito para Cabeçudas. No bairro de Navegantes foi pior. Ali, um raio atingiu várias casas. Dois pescadores foram fulminados instantaneamente. Os senhores, Hipólito Francisco Borba e Manoel Chagas.”
Menina foi enterrada até o pescoço na areia da praia
O jornal também registrou, na mesma edição, o curioso caso de uma menina atingida por um raio. Ela foi salva graças a um método muito recorrente na época, que consistia em enterrar a pessoa até o pescoço na areia da praia para “puxar a eletricidade para a terra”. Uma crença popular, mas que ocasionalmente parecia funcionar.
“Uma menina que também fora atingida, levada à praia e enterrada até o pescoço, pôde ser salva. E assim, lamentando todas essas tristes ocorrências, vamos esperar que a primavera de 1956 nos mostre a beleza de seus dias.”
A crença de que enterrar uma pessoa até o pescoço podia salvá-la de uma descarga elétrica surgiu na Europa da Idade Média. Quando alguém era atingido por um raio, recomendava-se que fosse enterrado parcialmente, na ideia de que a terra puxaria a “eletricidade” do corpo. Muitas vezes, as pessoas já haviam se recuperado da descarga, e a melhora era atribuída ao método, que em Navegantes, adotava a areia da praia como recurso.

No dia 21 de abril de 1959, outro incidente com raios abalou a cidade. O morador do bairro São Domingos, Vergílio Fernandes, de 37 anos, foi atingido por um raio. Vergílio morreu instantaneamente e duas pessoas ficaram feridas. A notícia foi publicada no Jornal Itajaí de 25 de abril de 1959.
“Na localidade de São Domingos, em Navegantes, um raio expedido por forte trovoada do dia 21 atingiu o senhor Vergílio Fernandes, causando-lhe morte instantânea. A vítima tinha 37 anos de idade, casado, deixando viúva e uma filha. Além desse sucesso letal, outras pessoas foram atingidas sofrendo queimaduras, como a senhora Rita Claudino e um menor filho do senhor Antônio Pedro de Souza.”
Mais uma tragédia foi registrada em 23 de janeiro de 1966, no bairro Escalvados. Uma mulher de 53 anos foi vítima de uma “faísca elétrica”, como os raios eram chamados na época. A notícia saiu na edição de 26 de janeiro de 1966, do jornal A Nação.
“A trovoada que desabou sobre a cidade no decorrer da noite de domingo que passou fez uma vítima na localidade de Escalvados, no município de Navegantes, quando uma faísca elétrica fulminou uma senhora.
Trata-se da senhora Esperança Soares Cidral, de 53 anos de idade, que teve morte instantânea, consternando os moradores daquela localidade, onde a inditosa senhora era bastante conhecida.
Em nossa cidade, por exemplo, uma faísca elétrica que caiu em um para-raios existente em um edifício da rua Lauro Müller, depois de deixar alguns fregueses do Seara’s Bar atônitos, atingiu ainda um poste de iluminação elétrica, torcendo uma haste de abajur.
Pequenos danos foram causados aos lavradores das redondezas, diante das fortes chuvas que caíram enquanto o vento andou danificando árvores e destelhando algumas casas.”
Se na década de 1960 Navegantes ainda convivia com descargas elétricas fatais, hoje a situação é outra. O Brasil possui a maior incidência de raios do mundo, cerca de 70 milhões por ano, e, graças a décadas de estudos, campanhas e regulamentações, muitas tragédias puderam ser evitadas.
Mesmo assim, especialistas alertam que ainda há muito a aprender sobre prevenção. Entre as principais recomendações, estão evitar áreas descampadas, praias e rios durante tempestades. Também não se deve buscar abrigo sob árvores. Dentro de casa, a orientação é manter distância de janelas, portas metálicas e linhas telefônicas.
