Coluna Outros Quinhentos / Por Rogério Pinheiro / JB
Quem vai hoje ao supermercado certamente já se assustou com o preço do café. Com valores cada vez mais altos, manter o hábito de saborear uma xícara da bebida tornou-se um desafio para o bolso. No entanto, em Navegantes, no início do século XX, muitos moradores tinham o privilégio de consumir o café produzido em suas próprias terras e um produto de qualidade. A coluna “Outros Quinhentos” conta nesta edição a história dos cafezais de Navegantes.
As primeiras sementes de café foram trazidas da Etiópia (África) e introduzidas pelos árabes há mais de mil anos no Iêmen, um pequeno país da Península Arábica. Os árabes foram responsáveis pela diversificação e dispersão da espécie arábica (Coffea arabica), uma das primeiras variedades de café a ser cultivada.
A cultura do café no Brasil teve início em 1727, no atual estado do Pará. A planta adaptou-se bem ao clima do norte do país e, em apenas cinco anos, já era exportada. Depois do Pará, Bahia e Ceará também iniciaram o cultivo. No entanto, a produção só ganhou destaque a partir de 1760, quando o café começou a ser plantado no estado do Rio de Janeiro. Pouco tempo depois, chegou às lavouras paulistas e se tornou o principal produto de exportação do Brasil.

Em Navegantes, o cultivo teve início em 1891, na localidade do Gravatá. Os pioneiros foram Manoel Antônio Fontes e Francisco Teixeira Gonçalves, que plantaram em suas propriedades cerca de cinco mil pés de café. A primeira colheita bem-sucedida animou outros agricultores a investir na cultura, que logo se expandiu para os bairros Machados, Pedreiras e Escalvados, além de municípios vizinhos como Penha e Camboriú.
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O jornal “Novidades”, em sua edição de 7 de fevereiro de 1909, destacou a produção cafeeira da região.
“O município de Itajaí não fica atrás de Camboriú no cultivo da valiosa planta. A principal zona de cultura é a que compreende os lugares de Penha, Armação, Mato Grosso, Gravatá, Queimadas (Pedreiras) e Cabras. Numerosos são ali os lavradores que anualmente colhem de 200 a 300 alqueires de café. Desenvolve-se o cafeeiro em terrenos arenosos, argilosos e mais frondosos do que em São Paulo. Resistem longos anos às intempéries, devido a ser plantado com ingazeiros de permeio, ficando assim mais ao abrigo do sol, dos ventos e da geada. Floresce até cinco e seis vezes no ano, pelo que a colheita vai de maio a outubro.”
Não há registros do tipo exato de café cultivado em Navegantes, mas é provável que fosse o chamado café sombreado, comum em cidades do litoral catarinense como Camboriú, Porto Belo e Florianópolis. Nessa técnica, os pés eram plantados sob árvores frutíferas ou nativas, como abacateiros, pitangueiras e laranjeiras, resultando em um cultivo artesanal.
Entre os produtores locais, destacaram-se Manoel Antônio Fontes e Francisco Teixeira Gonçalves. Este último chegou a receber uma medalha da Sociedade Catarinense de Agricultura pelo beneficiamento do café colhido em sua fazenda. Além do Gravatá, Gonçalves também possuía cafezais na Armação, em Penha.
Já o português Manoel Antônio Fontes foi quem mais se destacou na industrialização do produto na região. Ele abriu uma serraria a vapor na Barra do Rio, em Itajaí, onde também beneficiava arroz e café, utilizando modernas máquinas da época.

Em 1907, implantou a primeira torrefação de café da cidade, também na Barra do Rio. Segundo relatos, o café torrado e moído em sua fábrica era reconhecido pela pureza e sabor, em contraste com o método artesanal das donas de casa, que torravam e moíam os grãos em pequenas quantidades. O produto era então comercializado em latas no comércio local.
Além da indústria, Fontes tinha uma loja na rua Pedro Ferreira, no centro de Itajaí, onde vendia fazendas, armarinhos, ferragens e louças. Comprava a produção de agricultores de Itajaí, Navegantes e outras cidades da região, café, arroz, milho e feijão, beneficiava os produtos em sua fábrica e os revendia em diferentes pontos de Santa Catarina. Ele ainda possuía uma fábrica de solas de sapato, movida a motor.
A produção de café em Navegantes resistiu até a década de 1950. Por razões não registradas, a atividade deixou de ser economicamente viável, e os cafezais foram substituídos por outras culturas agrícolas.
Manoel Antônio Fontes
Natural de Portugal, Manoel Antônio Fontes chegou jovem ao Brasil em busca de melhores oportunidades. Trabalhou no comércio do Rio de Janeiro antes de se mudar para Itajaí, onde se estabeleceu como comerciante. Em 1884, participou da fundação do primeiro jornal da cidade, o Itajahy.

Filiado ao Partido Republicano, foi nomeado coronel da Guarda Nacional em 1893 e ocupou cargos de destaque na vida social e política local, como vice-presidente do Grêmio 3 de Maio. Em 1890, foi nomeado conselheiro municipal de Itajaí (equivalente ao cargo de vereador), por ato do governador, o itajaiense Lauro Müller, importante figura da Proclamação da República. Dois anos depois, foi eleito para o mesmo cargo.
Manoel Antônio Fontes faleceu em 4 de novembro de 1908, aos 63 anos. Era casado com Anna da Silva Fontes, com quem teve 11 filhos, entre eles o desembargador Henrique da Silva Fontes.
Francisco Teixeira Gonçalves
Francisco Teixeira Gonçalves, conhecido como Chico Curitibano, nasceu em 1852 e residia na Armação, em Penha. Foi eleito conselheiro municipal de Itajaí em 1910 e reeleito em 1914, chegando à presidência da Câmara Municipal. Chico Curitibano era natural do município da Lapa (PR) e faleceu em 9 de agosto de 1920, aos 68 anos.
Segundo Alexandre Konder, em sua crônica “Um lindo recanto catarinense”, publicada no jornal O Pharol em 15 de setembro de 1928, Chico Curitibano era considerado o morador mais influente da Armação da sua época. Sem médicos na localidade, utilizava seus conhecimentos de homeopatia para auxiliar os moradores, oferecendo cuidados de forma gratuita.
