QUAL É A HORA CERTA?

Qual a hora certa de cada coisa? Essa pergunta de um livro que estou lendo da psicanalista Ana Suy me capturou, passei horas pensando sobre o assunto e fui levada a escrever.

Ela cita também uma frase de Nietzche que diz “Morra na hora certa”, e esta, com certeza, seja uma questão ainda mais difícil de elaborar, por que em sentido amplo, precisamos saber “morrer” para muitas coisas ao longo da nossa vida.

Mas nós que estamos submersos no imediatismo será que ainda sabemos qual a hora certa para algo acontecer? Será que ainda sabemos esperar… Ou mesmo compreender que ela se encerre…?

Desaprendemos a lidar com o tempo, a fazer pausas, aguardar a “nossa vez”, apressamos tudo, corremos para tudo. Não conseguimos nem mesmo dormir, porque não sabemos desacelerar nosso relógio interno.

Apressamos os passos, os encontros, as relações, estamos inábeis na arte de cultivar qualquer coisa, porque isso nos demanda tempo e disponibilidade de escuta, de entrega, de construção.

Perdemos a habilidade de perder, de vivenciar os lutos, as partidas, porque tudo isso exige tempo, e as vezes um tempo enorme: para aceitação, para acolher a dor e deixá-la partir.

Afinal, diante de acontecimentos relevantes, precisamos ser amigos do tempo. Esperar que ele amenize o que sentimos, ou esperar que o novo surja de algum lugar.

Ana Suy em seu livro, aborda a dificuldade em saber a hora de parar, citando uma personagem do filme “o mínimo para viver”, que carrega a angústia de quase todos nós:

“Como reconhecer que a fome está saciada, que o que haveria para viver de fértil em um relacionamento já se esgotou a partir dali tudo o que se produzirá é dor? Como saber a hora de parar de comer, de beber, de amar, de sofrer, de viver?”.

Como não paramos para reflexionar sobre o que nos acomete, ficamos também presos nos episódios que criamos para fugir de nossas mazelas, como escreve Byung- Chul Han: “O sujeito do desempenho é incapaz de chegar a uma conclusão. Ele se despedaça sob a coação de sempre produzir mais…Em um mundo no qual a conclusão e o encerramento dão lugar a um avanço sem fim e sem direção…”

Estamos ágeis em deslizar pelas telas, que mudam os cenários em segundos, que retroalimentam nossos desejos, como se tudo pudesse ser saciado ao nosso modo, mas estamos perdidos em aceitar o que chega e o que parte, para além do tempo que imaginamos controlar.

Como conceber que algo nos escapa, ou chega de surpresa, quando aprendemos que tudo pode ser consumido e entregue em poucos minutos? Como pergunta Ana Suy: “Em que fase a fruta está madura e então começa a apodrecer?”.

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