Por Rogério Pinheiro
Entre tantas coisas que Navegantes já teve, uma delas é o Mercado do Peixe. Inaugurado em novembro de 1968, ele foi um dos primeiros espaços regulamentados para a venda de pescados em Santa Catarina. A coluna “Outros Quinhentos” conta a história pouco conhecida desse importante mercado, cuja ausência ainda hoje é sentida por pescadores artesanais e consumidores da cidade.
Antes da inauguração em 1968, os pescadores artesanais e os moradores de Navegantes precisavam atravessar o rio Itajaí-Açu para vender ou comprar peixes frescos. Em Itajaí, o Mercado do Peixe foi inaugurado em 19 de outubro de 1935, mas só ganhou o formato atual, com boxes organizados, em 1982.
Logo após a emancipação de Navegantes em 1962, uma das promessas do novo município foi construir um mercado onde os pescadores artesanais pudessem vender seu pescado e os consumidores comprassem peixes a preços mais acessíveis.
Para garantir um espaço dentro das normas vigentes, a Prefeitura de Navegantes apresentou um projeto ao Serviço de Extensão da Pesca de Santa Catarina (Sepesc). O plano foi aprovado e contou com apoio financeiro da Superintendência do Desenvolvimento da Pesca (Sudepe).
Assim, o Mercado do Peixe de Navegantes tornou-se um dos primeiros do estado a ter regulamentação formal, com supervisão do Sepesc e da Sudepe, algo que não ocorria em Itajaí e nem em outras cidades na época. Em artigo publicado no jornal “O Estado”, na edição de 20 de novembro de 1968, o Sepesc chegou a elogiar a iniciativa da Prefeitura de Navegantes.
“A comercialização do pescado é um dos maiores problemas para o pescador. Pescar não é logo vender. E o pescador, pode ele pescar e vender? Mas os mercados públicos devem ser regulamentados pelas prefeituras e o entendimento deve ser feito, entre elas e o pescador. E as prefeituras? Tem boa vontade?
A Prefeitura de Navegantes, às margens do Itajaí-Açu, teve esta coragem. Aceitou a ideia. Uniu-se ao pescador para o bem comum. O nosso escritório local de Extensão, em Itajaí, coordenou as aspirações de ambos os lados, somou os interesses e terá coroado seus trabalhos de Extensão.”
No mesmo artigo, o extensionista do Sepesc, Hélio Garrozzi, deu mais detalhes do Mercado do Peixe de Navegantes.
—O mercado público será dotado de um grande frigorífico com capacidade de 1.000 quilos, e de trapiche para atracar pequenas embarcações pesqueiras. O prédio já havia sido construído há muito tempo pela prefeitura no entroncamento das ruas Manoel Moreira Maia, 26 de Agosto e João Emílio, em terreno doado pela Marinha.

Inauguração
O Mercado do Peixe de Navegantes foi oficialmente inaugurado na tarde de um sábado, dia 30 de novembro de 1968, conforme registrado pelo jornal “A Nação”, de Blumenau, na edição de 5 de dezembro daquele ano.
“Foi instalado no dia 30 de novembro o Mercado do Peixe de Navegantes, em solenidade que contou com a presença do doutor Nalcir Salomé Silva, coordenador do Sepesc, senhor Hélio Garrozzi, extensionista do Sepesc, senhor José Schubert Júnior, secretário da Prefeitura Municipal, representando o prefeito Cirino Adolfo Cabral, do agente da Sudepe, do presidente da Colônia dos Pescadores, diversos pescadores e populares.
A instalação deu-se em prédio próprio da Prefeitura Municipal de Navegantes, situado na confluência das ruas João Emílio, 26 de Agosto e Manoel Moreira Maia. A solenidade transcorreu num ambiente de alegria e festa, ensejando uma confraternização entre autoridades e pescadores.
Às 15 horas foi cortada a fita inaugural pelo representante do prefeito, senhor José Schubert Júnior. Logo após foi procedida a benção das instalações. Na oportunidade discursou o representante do prefeito, dizendo do significado do acontecimento e agradecendo em nome de todos que serão beneficiados com o Mercado, a Câmara Municipal pela colaboração no sentido de que tal melhoramento se convertesse em realidade.”
O Mercado do Peixe foi cedido pela Prefeitura de Navegantes aos pescadores por meio de um convênio firmado com o Sepesc e com patrocínio da Sudepe. Coube à Prefeitura concluir as instalações, enquanto o Sepesc ficou responsável pela administração do espaço. No local onde foi construído o Mercado, a Prefeitura de Navegantes ergueu também um trapiche de 50 metros de comprimento por três metros de altura, destinado aos barcos dos pequenos pescadores.
O mesmo jornal “A Nação”, na edição de 14 de dezembro de 1968, destacou o movimento intenso no Mercado do Peixe de Navegantes.
“Está em pleno funcionamento o Mercado do Peixe de Navegantes para o gáudio dos pescadores e do povo navegantino. Os pequenos pescadores não precisam enfrentar as grandes dificuldades para vender o produto do seu trabalho, como acontecia anteriormente quando eles tinham que comercializar no Mercado Público de Itajaí ou pelas ruas da cidade de Navegantes.
A prova disso é que o movimento tem sido enorme, registrando-se uma grande afluência ao novo Mercado Público, que sem dúvida alguma, significa mais um marco de progresso para aquele balneário.”
A coluna não conseguiu encontrar a data em que o Mercado do Peixe deixou de funcionar. Na década de 1970, o prédio abrigou a delegacia de polícia de Navegantes. Já nos anos 2000, foi sede da Secretaria de Agricultura e Pesca. Atualmente, no local funciona a Carrera, o Estaleiro Municipal de Navegantes.
